Budismo na Coreia do Sul introduz robô-monge em cerimônia para rejuvenescer o número de fiéis
Em uma iniciativa que mescla tradição e tecnologia, monges budistas na Coreia do Sul realizaram uma cerimônia de iniciação para um robô humanoide. O evento, que ocorreu no Templo Jogyesa, sede da principal corrente budista do país, a Ordem Jogye, buscou adaptar rituais religiosos à presença da inteligência artificial para atrair um público mais jovem.
Durante as celebrações do tradicional Festival das Lanternas, o robô, vestido com um manto açafrão, recebeu um colar com 108 contas de oração e um adesivo comemorativo em seu braço, substituindo a marca de incenso utilizada no ritual humano de yeonbi. O robô Gabi, com cerca de 1,30 metro de altura, foi apresentado oficialmente em 6 de maio, recebendo os cinco preceitos budistas adaptados à sua natureza mecânica.
Segundo o Venerável Sungwon, a ideia para o robô-monge surgiu de forma descontraída entre os líderes religiosos, mas ganhou seriedade à medida que a reflexão sobre o avanço tecnológico avançava. “Os robôs estão entrando em nossas vidas muito rapidamente, e as pessoas já se sentem familiarizadas com eles. Eles estão se tornando parte da nossa comunidade”, declarou Sungwon ao The Guardian.
A cerimônia ocorre em um contexto de declínio de fiéis e novos monges no budismo sul-coreano. Dados indicam que cerca de 16% da população se identifica como budista, uma queda em relação aos 23% registrados em 2005, com o percentual entre jovens de 20 anos caindo para aproximadamente 8%. O número de novos mongens ordenados pela Ordem Jogye também diminuiu significativamente, caindo de mais de 200 há uma década para 99 em 2025.
A liderança da denominação tem investido em estratégias de “budismo moderno” para engajar o público jovem, utilizando aplicativos de meditação, produtos temáticos e campanhas digitais. A introdução do robô Gabi faz parte dessa estratégia, buscando aproximar os jovens dos templos.
“O importante é que os jovens visitem os templos pelo menos uma vez. Depois, quando forem mais velhos e começarem a refletir sobre a vida, naturalmente voltarão”, afirmou Sungwon.
A adaptação dos preceitos budistas para o robô gerou debates. Quatro regras focaram em evitar danos à vida, a outros robôs ou objetos, evitar comportamentos enganosos e agir com respeito às pessoas. O quinto preceito, que instrui o robô a não cobrar preços excessivos, buscou refletir o princípio de evitar excessos, comparando-o ao consumo de álcool por humanos.
Sungwon utilizou ferramentas de inteligência artificial como ChatGPT e Gemini para testar a formulação das regras, observando que os programas não compreenderam plenamente o conceito de proibições budistas. Para o monge, a cerimônia visou provocar reflexão sobre os limites éticos da tecnologia e orientar desenvolvedores de robôs.
Apesar das limitações técnicas, como a dificuldade em realizar tarefas simples como unir as mãos em oração, Sungwon expressou otimismo quanto ao futuro da inteligência artificial, acreditando que ela pode cuidar da humanidade com ternura. O robô Gabi participará em breve do desfile das Lanternas de Lótus, acompanhado por outros três humanoides.










