Chamados por justiça e responsabilização por sequestros na Coreia do Norte crescem em Washington
Washington, D.C. – Em um evento que reuniu especialistas em direitos humanos e relações internacionais, a urgência em abordar os sequestros perpetrados pela Coreia do Norte e a necessidade de responsabilização ganharam destaque. A conferência, co-organizada pela International Association of Korean Studies (ICKS) e realizada no Hudson Institute, discutiu não apenas o sofrimento das famílias das vítimas, mas também a estrutura sistemática por trás dessas ações e os caminhos para a justiça sob o direito internacional.
O painel matinal, intitulado “Sequestros e Repressão Transnacional”, buscou ir além da perspectiva histórica ou meramente humanitária, explorando as implicações atuais e futuras desses crimes. A discussão enfatizou a necessidade de uma abordagem mais robusta e coordenada entre Estados Unidos, Coreia do Sul e Japão para lidar com essa grave violação de direitos.
Uma abordagem centrada na vítima e no perpetrador
Jay Park, da Radio Free Asia (RFA), abriu o debate com uma apresentação focada na “Abordagem Centrada na Vítima”. Ele ressaltou o sofrimento intergeracional das famílias dos sequestrados e criticou a baixa atenção pública e a pouca proeminência dada a essa questão nos diálogos intercoreanos. Park sugeriu que, caso o diálogo entre EUA e Coreia do Norte seja retomado, os sequestros de sul-coreanos e japoneses devem ser incluídos como pauta.
Em contrapartida, Greg Scarlatoiu, presidente da ICKS e diretor do Committee for Human Rights in North Korea (HRNK), apresentou a perspectiva do “Perpetrador”. Ele analisou os sequestros como operações estatais sistemáticas, planejadas e executadas por agências de inteligência norte-coreanas. Segundo Scarlatoiu, o objetivo era treinar operativos, realizar roubo de identidade e conduzir operações no exterior, transformando os sequestrados em ferramentas para a mobilidade e atuação de espiões norte-coreanos. Essa visão realça a gravidade dos sequestros como crimes contra a humanidade, intrinsecamente ligados à segurança nacional.
Violações sob o direito internacional
Amanda Mortwedt Oh, pesquisadora da ICKS, analisou os sequestros sob a ótica do direito internacional. Ela os categorizou como crimes contínuos contra a humanidade, gerando responsabilidade penal individual e estatal. Embora medidas tradicionais enfrentem limitações, Oh apontou a jurisdição universal e o litígio civil como vias significativas para a responsabilização, mesmo que parcial.
A pesquisadora detalhou os sequestros em diferentes períodos: o pós-Guerra da Coreia, com a falha na repatriação de prisioneiros de guerra (POWs) e civis sul-coreanos; os sequestros de estrangeiros a partir dos anos 1970, incluindo japoneses, sul-coreanos e romenos; e os mais recentes envolvendo missionários. Ela explicou que os POWs sul-coreanos não repatriados foram submetidos a trabalhos forçados e doutrinação ideológica, e seus descendentes enfrentaram discriminação. Sob o direito internacional, os sequestros configuram desaparecimentos forçados, onde o Estado priva o indivíduo de liberdade, nega a detenção e oculta seu destino.
Oh destacou que, como signatária do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (PIDCP), a Coreia do Norte viola direitos fundamentais como liberdade pessoal e proibição de detenção arbitrária. Além disso, os sequestros invadem a soberania de outros países e violam o princípio de não interferência.
Caminhos para a responsabilização e desafios atuais
Durante a discussão, foram explorados os mecanismos de responsabilização, incluindo o Tribunal Penal Internacional (TPI) e o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ). Contudo, obstáculos como o poder de veto de China e Rússia no Conselho de Segurança da ONU (para encaminhamento ao TPI) e a necessidade de consentimento estatal (para o TIJ) foram levantados.
Apesar das dificuldades, o litígio civil em tribunais domésticos e a aplicação da jurisdição universal foram destacados como alternativas importantes. Mesmo que a execução de sentenças seja complexa, o valor reside no reconhecimento oficial dos fatos e na criação de um registro legal, afirmando que tais crimes são uma preocupação internacional.
O jornalista Donald Kirk criticou a repetição de apelos sem ações concretas, citando casos emblemáticos como o de Megumi Yokota e o sequestro de passageiros de voos da Korean Air. Ele enfatizou a necessidade de demandas mais fortes à Coreia do Norte e que as reuniões de famílias separadas sejam mais do que breves encontros. Raymond Ha, por sua vez, categorizou as violações de direitos norte-coreanas e situou os sequestros como um tema com impacto visível e direto nas famílias e comunidades, servindo como motor para esforços diplomáticos.
Ações futuras e cooperação trilateral
A conferência reiterou a necessidade de ir além de eventos anuais e discussões na ONU. Representantes enfatizaram a urgência em fornecer às famílias das vítimas resoluções concretas, incluindo a confirmação do paradeiro de seus entes queridos e o estabelecimento da verdade. A possibilidade de que a responsabilização e a repatriação de vítimas não sejam mutuamente exclusivas foi discutida, com a responsabilização servindo como alavanca de pressão contra o regime norte-coreano.
A cooperação de alto nível entre EUA, Coreia do Sul e Japão, a inclusão dessas questões em agendas de cúpulas, declarações conjuntas, sanções e coleta de evidências foram apontadas como medidas cruciais. A reautorização da Lei de Direitos Humanos da Coreia do Norte (North Korean Human Rights Act) nos EUA foi discutida, com apelos para que cidadãos convençam seus representantes sobre sua importância. A cooperação trilateral foi firmada como pilar central da agenda de direitos humanos para a Coreia do Norte.
