Apostasia exige arrependimento, não evangelização, aponta especialista em análise teológica
Diferentemente de uma abordagem missionária, a apostasia, que consiste no abandono consciente da fé, demanda um chamado ao arrependimento. A análise é do teólogo Fernando Moreira, que ressalta a distinção crucial entre quem nunca conheceu a Deus e quem O rejeitou após conhecê-lo. O especialista, em sua coluna no Guiame, argumenta que essa diferença é existencial e impacta diretamente na abordagem.
Moreira explica que o missionário anuncia um Deus desconhecido, enquanto o profeta se dirige ao apóstata com um clamor por retorno. A atuação do primeiro é um convite, a do segundo, uma exigência de arrependimento, confrontando a escolha deliberada de se afastar da fé.
A origem e o conceito de apostasia detalhados
A palavra apostasia, originada do grego ‘aphístēmi’, descreve o ato de se afastar de uma posição estabelecida, comparada à deserção militar. No contexto religioso, significa o abandono da verdadeira fé. O teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer alertou sobre o perigo da neutralidade, que mascararia os valores do mundo, em inimizade contra Deus.
No hebraico, o conceito de apostasia é abordado por termos como ‘marad’ (rebelar-se contra a autoridade divina), ‘sug’ (retroceder), ‘ma’al’ (infidelidade) e ‘azav’ (abandonar). A Septuaginta utiliza ‘apostasia’ para traduzir essas palavras, como em Jeremias 2:19: “A tua apostasia te repreenderá”. Fernando Moreira enfatiza que não se trata de um tropeço, mas de uma deserção consciente.
Distinção entre desviado e apóstata segundo a Bíblia
Nem todo indivíduo que se distancia da fé é considerado apóstata. A Bíblia estabelece distinções importantes. Um desviado, como Pedro que negou Jesus mas se arrependeu, pode ter uma atitude temporária por fraqueza ou medo, respondendo à correção e sendo passível de restauração, conforme Tiago 5:19-20.
Em contrapartida, o apóstata, exemplificado por Judas que traiu Jesus e se enforcou, demonstra rebelião deliberada e obstinação. O especialista aponta que, para o desviado, há esperança de conversão, mesmo tardia, citando o ladrão na cruz como um exemplo.
O canto da sereia como analogia para a sedução da apostasia
A analogia do canto das sereias, da Odisseia de Homero, é utilizada para ilustrar a natureza sedutora da apostasia. O canto representa promessas de prazer e realização que, na verdade, levam ao naufrágio da fé. Não é um ataque frontal, mas uma melodia suave que sussurra que “você merece isso” ou “Deus não vai se importar”.
O apóstolo João, em sua primeira epístola, descreve essa tríade sedutora como a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida. C.S. Lewis, em suas obras, reforça a sutileza dessa sedução, que se manifesta em distrações diárias e prazeres inocentes que desviam tempo e devoção, em vez de pecados grosseiros.
A importância da disciplina e do apego a Cristo
A resistência ao ‘canto da sereia’, segundo o especialista, requer disciplina e um apego inabalável a Cristo. Citando o técnico de vôlei Bernardinho, Fernando Moreira destaca que “talento sem disciplina é apenas um desperdício”. O sucesso na fé, assim como no esporte, é construído nos “dias silenciosos em que ninguém está vendo”, na decisão repetida de não ceder às tentações.
O mastro do navio, na analogia, é Cristo. Somente aqueles que se amarram a Ele, por meio da oração, da Palavra e da disciplina diária, podem ouvir as seduções do mundo sem serem arrastados. A apostasia não é um acidente, mas uma deserção deliberada, um chamado ao arrependimento enquanto ainda há tempo.
