Declaração de Lula sobre evangélicos em evento do PT em Salvador gera forte repercussão e críticas da oposição e de líderes religiosos
Uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, proferida durante as comemorações dos 46 anos do Partido dos Trabalhadores (PT) em Salvador no último sábado (7), desencadeou uma onda de reações entre líderes religiosos e parlamentares da oposição. A afirmação de que “90% dos evangélicos recebem benefícios do governo” e o apelo para que a esquerda dialogue diretamente com esse segmento motivaram críticas.
O presidente defendeu, em seu discurso, que a militância e as lideranças de esquerda não devem esperar por um apoio espontâneo de pastores ou líderes religiosos, incentivando a aproximação direta com os fiéis. Segundo Lula, a estratégia deve ser de ir ao encontro desse público.
A fala ocorreu no Trapiche Barnabé, bairro do Comércio, durante o encerramento de um encontro partidário que reuniu ministros, parlamentares e militantes por três dias. Parte da programação do evento ocorreu no Hotel Fiesta, no bairro de Itaigara.
As declarações foram alvo de duras críticas por parte da oposição. O deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do PL na Câmara, interpretou a fala como uma visão instrumental da fé cristã. Ele acusou o governo de tratar os evangélicos como uma base eleitoral dependente do Estado, utilizando políticas públicas como ferramenta de influência política e associando religião a benefícios sociais em uma lógica de barganha, o que, segundo ele, demonstra desprezo pela autonomia dos cidadãos e pela liberdade de consciência religiosa.
Líderes religiosos também se manifestaram. O pastor Silas Malafaia classificou o presidente como “Pinóquio” e o acusou de manipular dados, afirmando que a informação sobre os 90% de evangélicos recebendo benefícios não condiz com a realidade e seria uma tentativa de enganar a população.
O deputado estadual Delegado Zucco (Republicanos-RS) avaliou que a declaração busca desqualificar um grupo que, em sua visão, historicamente se posiciona de forma crítica ao projeto político do PT. Para o parlamentar, a fala reforça uma tentativa de estigmatizar os evangélicos como eleitores motivados unicamente por interesses econômicos.
O pastor e teólogo Franklin Ferreira considerou a declaração “profundamente cínica”. Em manifestação pública, ele ressaltou que o cristianismo se baseia em valores como trabalho, família e responsabilidade moral, e não em benefícios estatais. “Cristãos não são massa de manobra. Quando o Estado passa a tratar a fé como curral, ainda existem ovelhas que reconhecem outro Pastor”, declarou em suas redes sociais.
A polêmica surge em um contexto de recentes ações do governo federal voltadas ao segmento evangélico, como o decreto assinado em dezembro que reconhece a cultura gospel como manifestação cultural nacional. Contudo, as reações ao discurso do presidente indicam que a relação entre o PT e a comunidade evangélica continua marcada por desconfiança e por uma considerável tensão política.


