Teólogo Luiz Sayão detalha a estratégia de Paulo de Tarso em focar o evangelho nas grandes cidades do Império Romano, em contraste com o ministério inicial de Jesus.
O teólogo e hebraísta Luiz Sayão abordou a metodologia missionária do apóstolo Paulo, destacando a decisão estratégica de concentrar a pregação do Evangelho nos centros urbanos do Império Romano. A explanação ocorreu durante o 9º Congresso Internacional de Arqueologia Bíblica, em São Paulo, que reúne mais de 500 participantes.
Sayão explicou que a trajetória de Jesus Cristo, por outro lado, teve um caráter predominantemente rural, com foco na região da Galileia e no entorno do Mar da Galileia. O ministério de Cristo, segundo o teólogo, utilizava analogias ligadas à agricultura e ao pastoreio, refletindo um ambiente de pequenas aldeias e contexto agrícola.
“A trajetória de Jesus Cristo está distanciada dos grandes centros urbanos e tem esse pano de fundo mais agrícola”, declarou Sayão. Ele observou que Jesus era visto como um rabino independente atuando em uma região mais afastada do centro do Império Romano, e que seus ensinamentos eram moldados para a audiência local.
A população judaica, conforme Luiz Sayão, representava uma parcela significativa do Império Romano, estimada em cerca de 10% dos 65 a 70 milhões de habitantes da época, com presença disseminada por todo o território.
Mudança para o ambiente urbano
Com as viagens missionárias de Paulo, o cristianismo passou a assumir um caráter marcadamente urbano. Sayão ressaltou a figura de Paulo como alguém singularmente preparado para essa expansão, sendo simultaneamente judeu, romano e grego, o que se configurou como uma vantagem estratégica para o anúncio da mensagem cristã.
“Você tem a figura extraordinária, única e diferenciada de Paulo, que é muito judeu, muito romano e muito grego. É uma questão estratégica para o anúncio do Evangelho”, enfatizou o teólogo.
Paulo, como cidadão romano, usufruía de privilégios que facilitavam sua mobilidade e sua defesa legal. Suas viagens o levaram a cidades importantes, que funcionavam como polos de atração para pessoas de diversas origens e províncias romanas, como foi o caso de Éfeso.
“As maiores cidades do Império Romano, tanto no Ocidente quanto no Oriente, eram cidades que juntavam pessoas de toda a parte. Por exemplo, Paulo em Éfeso gente de toda a província romana da Ásia veio ouvir a mensagem do Evangelho. Essa concentração facilitava a ideia de você atingir todo tipo de etnia”, comentou Sayão.
Os vilarejos menores, por sua vez, ficaram em segundo plano na estratégia paulina, por serem mais difíceis de alcançar.
Atração pela mensagem e vulnerabilidade social
O ambiente urbano atraía muitas pessoas para a mensagem do Evangelho, em parte pela atenção que o cristianismo primitivo dispensava aos mais vulneráveis. O teólogo apontou que as cidades concentravam pessoas doentes, viúvas e órfãs, grupos que encontravam na mensagem cristã um acolhimento particular.
“Nesse ambiente da cidade, você vai encontrar muitos vulneráveis, pessoas doentes, viúvas, órfãs. E a mensagem cristã, desde o começo, dava muita atenção a isso. E, portanto, isso chamava a atenção de modo particular”, ensinou Luiz Sayão.
Ele também mencionou que muitos não-judeus se interessavam pelo judaísmo, mas evitavam o ritualismo e o legalismo dos fariseus, encontrando no cristianismo uma alternativa.
Fatores linguísticos e geográficos
A propagação da mensagem de Cristo foi favorecida pela questão linguística e política do Império. O grego, idioma universal da época, era falado nas cidades, facilitando a comunicação.
“E uma coisa que nós nunca pensamos é que, exatamente nas áreas urbanas, as pessoas estavam mais abertas a novas ideias, novas reflexões. Na zona rural não. A Zona Rural é o ambiente da agricultura, que funciona conforme os paradigmas do paganismo antigo com suas ideias de fertilidade. Então, há muito mais resistência”, ponderou Sayão.
A malha de estradas que conectava o Império Romano, como a Via Ignácia no norte da Grécia utilizada por Paulo, também desempenhou um papel crucial na expansão do cristianismo.
Sayão concluiu que o foco do Novo Testamento e da expansão da igreja primitiva estava nas grandes cidades, demonstrando uma adaptação e flexibilidade da mensagem cristã. O ministério de Paulo exemplifica essa capacidade de adaptação, como sua mudança para pregar na escola de Tirano em Éfeso quando um plano inicial não funcionava.
