Nova descoberta arqueológica na Turquia lança luz sobre transição religiosa
Uma inscrição milenar desenterrada em um templo da era romana, no sudeste da Turquia, está proporcionando aos arqueólogos uma visão rara de como o Cristianismo gradualmente suplantou uma das religiões de mistério do Império Romano. Acredita-se que o texto em aramaico, gravado próximo à entrada de um templo subterrâneo de Mitra em Zerzevan Castle, registre o encerramento do santuário em um período de crescente influência cristã no final do Império Romano.
A descoberta, que permaneceu sem decifração desde a localização inicial do templo em 2017, vem acompanhada de uma cruz esculpida. Segundo a Anatolian News, a inscrição sugere que o local foi intencionalmente selado após passar para a autoridade cristã, marcando um ponto de virada histórico.
Zerzevan Castle: um palco para a história religiosa
O Castelo de Zerzevan, situado próximo à atual Diyarbakır, a cerca de 64 quilômetros ao norte da fronteira síria, funcionou outrora como uma fortaleza fronteiriça romana na rota entre Amida e Dara. Escavações no local revelaram edifícios militares, sistemas de água e um dos santuários mitraicos mais bem preservados do mundo romano, localizado sob a fortaleza.
O Mitraísmo era uma religião de mistério exclusiva para homens, dedicada a Mitra, o deus iraniano associado ao sol. A fé se espalhou amplamente pelo Império Romano nos séculos II e III d.C., especialmente entre soldados e oficiais imperiais. Os rituais eram realizados em santuários fechados, frequentemente subterrâneos, com foco em luz, ordem cósmica e iniciação.
Acredita-se que soldados romanos tenham tido contato com o Mitraísmo durante campanhas militares em regiões que hoje correspondem ao Irã e Iraque. Contudo, após o Imperador Constantino abraçar o Cristianismo no início do século IV, a religião começou a declinar rapidamente.
Decifrando a inscrição: um selo de transição
A inscrição recém-interpretada foi examinada por Mehmet Sait Toprak, líder do Departamento de Língua e Literatura Siríaca da Universidade Mardin Artuklu. Após comparar sua linguagem e formas de letras com inscrições siríacas e aramaicas dos séculos II e III d.C., Toprak datou a gravura para o século III ou IV.
Toprak indicou que o texto faz referência à Sagrada Cruz e descreve Deus como aquele que “ordena, reforma e espalha o amor”. Ele explicou que a inscrição e a cruz próxima provavelmente serviram como um selo religioso, indicando que o templo havia sido fechado e destituído de sua função sagrada.
“Esta é uma descoberta arqueológica de extrema importância”, declarou Toprak à agência estatal Anadolu. O diretor da escavação, Aytaç Coşkun, mencionou que pesquisadores na Turquia e no exterior estudaram a inscrição desde sua descoberta em 2017, mas seu significado permaneceu incerto até a análise mais recente.
Moedas encontradas anteriormente no local apontavam para o abandono do templo nos séculos III ou IV, enquanto a inscrição agora oferece evidência direta de seu fechamento durante o período cristão. A inscrição menciona tanto Mitra quanto Jesus Cristo, e arqueólogos afirmam que a descoberta fornece uma evidência incomumente clara da transição religiosa que ocorreu à medida que o Cristianismo se expandia e o Mitraísmo passava a ser visto como uma fé rival.
