IA cria ‘gurus espirituais’ digitais e lucra milhões com seguidores desavisados

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Inteligência artificial revoluciona espiritualidade virtual com ‘coaches’ que faturam milhões e conquistam multidões

Personagens virtuais gerados por inteligência artificial (IA) estão conquistando milhões de seguidores e gerando lucros substanciais, muitos vezes sem que o público perceba a natureza artificial de seus “gurus” espirituais.

Um exemplo notório é o “monge” Yang Mun, um coach espiritual virtual que acumula mais de 6 milhões de seguidores em plataformas como Instagram. Criado pelo empreendedor israelense Shalev Hani, utilizando ferramentas como ChatGPT, ElevenLabs e HeyGen, o personagem virtual exibe feições orientais, veste um manto laranja e transmite mensagens sobre equilíbrio interior e sabedoria milenar.

Shalev Hani revelou publicamente ter lucrado mais de US$ 300 mil, aproximadamente R$ 1,5 milhão, nos primeiros 90 dias de operação de Yang Mun. O personagem gerou mais de 400 milhões de visualizações em diversas plataformas, com vídeos que seguem uma fórmula de mensagens motivacionais, abordando temas como resistência ao sofrimento e cansaço.

Os comentários nas publicações de Yang Mun indicam que muitos seguidores buscam conforto e paz em suas mensagens, sem ter conhecimento de que ele é uma criação de IA. Mesmo com legendas e dublagens em outros idiomas, o aviso de “Gerado por IA” não é exibido de forma proeminente, o que contribui para a identificação do público com o conteúdo.

A operação comercial em torno desses coaches virtuais é diversificada. O site oficial de Yang Mun oferece e-books com títulos como “Tempo de Cura” e “Curando a Alma do Homem Moderno”, com preços que variam entre US$ 10 e US$ 50 (R$ 50 a R$ 250). Há também um pacote mais caro focado em equilíbrio emocional e autoconhecimento. O site não informa que Yang Mun é um personagem, apenas que usa “ferramentas de aprimoramento de voz”.

Estima-se que a renda gerada pela monetização do conteúdo de Yang Mun no Instagram varie entre US$ 8 mil e US$ 11 mil mensais, somando-se ao lucro com a venda de produtos digitais. A produção de cada vídeo leva cerca de 20 minutos, com roteiros gerados por IA e automação completa do processo, desde a criação até a publicação.

O caso de Yang Mun é um marco no crescente mercado de “coaches espirituais virtuais”, levantando debates sobre o uso de IA em temas de espiritualidade. Figuras geradas por IA demonstram capacidade de produção que supera a de criadores humanos.

O uso de IA em aconselhamento espiritual tem gerado controvérsias. Em 2025, psicólogos britânicos alertaram sobre os perigos do ChatGPT em oferecer conselhos a pessoas com transtornos mentais. A Igreja Católica também retirou de circulação o Padre Justin, um personagem de IA criado para responder sobre fé.

O Dr. Lyndon Drake, pesquisador da Universidade de Oxford, avalia que chatbots de IA podem desafiar o papel de líderes religiosos, mas ressalta que suas interpretações de textos sagrados são frequentemente questionadas.

No Brasil, o projeto Profetas Sintéticos cataloga mais de 60 perfis de figuras religiosas e espirituais geradas por IA, que somam mais de 13 milhões de seguidores no Instagram. Exemplos incluem Aharon Viana, um pastor virtual com visual de cantor sertanejo, e Hikari de Jesus, o autodeclarado “primeiro cantor gospel de IA do Brasil”.

O pastor presbiteriano Valdinei Ferreira apontou que a IA pode se tornar um “oráculo” para os evangélicos brasileiros. Curiosamente, mesmo cientes da natureza artificial, seguidores continuam a pedir orações a essas entidades. A influenciadora Camila Loures relatou em podcast ter pedido oração ao ChatGPT, exemplificando a complexa relação entre tecnologia e fé.

Diante da constante evolução tecnológica e da capacidade dos algoritmos em produzir mensagens que ressoam com crenças pré-existentes, a questão que se impõe é se o valor da mensagem transcende a identidade do mensageiro.

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