Pastora Helena Raquel desafia ‘doutrina do ungido’ e expõe acobertamento de abusadores em congresso pentecostal
A pastora Helena Raquel utilizou o Congresso dos Gideões, um dos maiores eventos religiosos do Brasil, para confrontar a prática de acobertamento de abusadores dentro de igrejas. A pregação, que abordou a narrativa bíblica de Juízes 19, onde uma mulher anônima é vítima de um estupro coletivo, foi interpretada pela colunista Bruna Santini como uma ruptura com a negligência histórica em lidar com passagens bíblicas incômodas e com líderes religiosos que falham em proteger seus fiéis.
Santini, escrevendo para a Folha, aponta que a escolha do texto por Helena Raquel não foi aleatória, mas sim uma forma de desafiar a conivência institucionalizada. Ela ressalta que a colunista considera a saúde espiritual de uma nação diretamente ligada à forma como ela trata mulheres e crianças, questionando a incoerência de se autodenominar uma “nação cristã” ao mesmo tempo em que se encobrem casos de pedofilia, violência doméstica e abuso sexual.
A análise de Bruna Santini detalha como Helena Raquel direcionou sua mensagem à plateia predominantemente composta por líderes religiosos. A pregação confrontou práticas como a realocação de pastores acusados de abuso para outras comunidades, permitindo que o escândalo esfriasse, e criticou a desigualdade na exigência de submissão feminina em contraste com a ausência de heroísmo masculino, além do corporativismo religioso que protege líderes por seu status em detrimento de seu caráter.
Segundo Santini, a força da pregação de Helena Raquel reside em sua granularidade, fruto de anos de trabalho pastoral de escuta e acolhimento a vítimas. A colunista cita falas como “Pai que aterroriza filho em nome da fé, arrancando página da Bíblia, amassando e colocando na boca da criança, existe — e nós sabemos”, como evidência desse conhecimento profundo da realidade.
Um dos pontos centrais destacados por Bruna Santini é o enfrentamento direto da “doutrina do ungido”, que utiliza passagens bíblicas como blindagem espiritual para abusadores. Helena Raquel rebateu essa interpretação afirmando que “Pedófilo não é ungido. Pedófilo é criminoso”, e que “não existe unção que justifique abuso”, pedindo o fim do tratamento de “irmãos” ou “pastores” a agressores.
A pastora também abordou a distorção que incentiva mulheres a permanecerem em casamentos abusivos como um sinal de virtude. Bruna Santini relata que Helena encorajou vítimas de violência doméstica a buscarem proteção, denunciarem agressores e a orarem por si mesmas, em vez de esperarem a salvação do abusador ou aceitarem pedidos de desculpas.
“Se tem alguém tocando no seu corpinho… Respira e liga 100”, declarou Helena Raquel, enquanto o número do Disque 100 aparecia no telão.
Para Bruna Santini, essa mensagem direcionada a crianças, transmitida em um palco com milhares de líderes religiosos, sintetiza a coragem de levar um alerta de proteção infantil a um ambiente frequentemente avesso a escândalos. A colunista observa que, apesar das parabenizações, a pregação gerou reações contrárias, com acusações de “feminista infiltrada” e questionamentos à própria ordenação de Helena como pastora.
Santini considera o ataque à mensageira um mecanismo previsível quando o argumento não pode ser refutado. Ela compara Helena Raquel a Débora, figura bíblica que significa “abelha”, capaz de produzir mel e ferroar quando necessário. A angústia sobre a recepção de Helena no congresso do próximo ano reforça, na visão da colunista, a profundidade da ferida exposta pela sua mensagem, que, apesar de necessária, ainda provoca controvérsia.
Bruna Santini analisa a força da mensagem de Helena Raquel
Bruna Santini conclui que Helena Raquel realizou um ato raro e necessário ao usar a própria estrutura de autoridade religiosa para confrontar seus pares. A força da mensagem reside em sua capacidade de gerar debate e evidenciar que a mesma Bíblia distorcida para silenciar vítimas também aponta para um Salvador libertador.
