Leitores automáticos de placas nos EUA registram movimentações detalhadas e levantam preocupações sobre privacidade e segurança
Mais de 94 mil leitores automáticos de placas (ALPRs) estão em operação nos Estados Unidos, com um número que cresce diariamente. Esses dispositivos, muitas vezes instalados em intervalos curtos nas rodovias, capturam informações como localização, marca, modelo, cor, avarias e até adesivos de veículos, transformando-os em dados pesquisáveis. A tecnologia também está presente em viaturas policiais.
Um oficial de polícia de Denver demonstrou o uso do sistema, que alertou sobre uma carteira de motorista suspensa. Outro policial explicou a facilidade de operação, permitindo que o sistema funcione em segundo plano enquanto outras tarefas são realizadas. A polícia afirma que os leitores de placas auxiliam na resolução de crimes.
No entanto, esses dispositivos também podem ser usados para compilar bancos de dados detalhados sobre os indivíduos, registrando seus locais de moradia, trabalho, frequência em locais religiosos ou participação em eventos políticos. As imagens capturadas são carregadas em um grande banco de dados compartilhado, acessível por autoridades policiais e outras agências governamentais. Estima-se que bilhões de leituras de placas ocorram anualmente.
Dave Maass, da Electronic Frontier Foundation, destaca que algumas agências policiais buscam empregar a tecnologia para prever e solucionar crimes futuros. “Esta é uma das tecnologias mais perniciosas e ofensivas nos Estados Unidos”, afirmou Maass. “Ela é apresentada ao público de forma enganosa, fazendo com que as pessoas acreditem que está fazendo uma coisa, quando na verdade está fazendo outra.”
Robert Frommer, advogado do Institute for Justice, considera os leitores de placas uma violação da Quarta Emenda, que protege contra buscas e apreensões irracionais. “Esta tecnologia não se trata apenas de tirar fotos de placas”, explicou Frommer. “Trata-se do banco de dados de IA no back-end ser capaz de pegar todos esses dados, fazer insights profundos sobre nossos movimentos passados e até prever para onde iremos em seguida.”
As preocupações aumentam com a facilidade de hacking dos leitores de placas, como descoberto pelo blogueiro de tecnologia Benn Jordan. Ele demonstrou que, com poucos cliques, as câmeras podem ser transformadas em dispositivos de espionagem, hospedeiros de malware ou ferramentas para roubar credenciais de login e minerar criptomoedas. Dados de leitores de placas também foram encontrados à venda na dark web.
Casos de policiais utilizando dados de leitores de placas para perseguir interesses românticos foram relatados. Maass mencionou dezenas de incidentes onde policiais abusaram do sistema para perseguir ex-parceiras, mulheres de interesse ou vizinhos, ressaltando a dificuldade em verificar a legitimidade de milhões de buscas mensais.
A Flock Safety, maior fabricante de leitores de placas, enfrenta críticas. Um registro público revelou que funcionários da empresa acessaram câmeras locais para monitorar academias, piscinas e áreas infantis. A empresa declarou que os acessos foram feitos com permissão explícita da cidade como parte de suas funções.
Diante da crescente vigilância, com aproximadamente uma câmera para cada 3.400 americanos, uma onda de vandalismo contra os dispositivos ocorreu. A Flock Safety defende a constitucionalidade de sua tecnologia, argumentando que placas visíveis publicamente não são informações privadas. Frommer contrapõe, comparando a observação ocasional a um registro persistente e invasivo dos movimentos de um indivíduo, o que caracterizaria perseguição.
A empresa alega que sua tecnologia não cria mapas de calor de atividades. Contudo, a cidade de Oshkosh, Wisconsin, cancelou seu contrato com a Flock após um funcionário admitir a criação desses mapas. A Flock Safety afirma que sua tecnologia auxilia na solução de cerca de 700.000 crimes anualmente, mas erros ocorrem, como a prisão de um professor inocente identificado erroneamente pelo sistema na Carolina do Norte.
Embora a oposição aos leitores de placas venha majoritariamente da esquerda política, Maass enfatiza que todos os americanos deveriam se preocupar. “Se você tem convicções, política, crenças religiosas ou políticas, deve se preocupar com esta tecnologia porque ela pode ser usada contra críticos do governo”, alertou. A polícia argumenta que 70% dos crimes envolvem veículos, tornando os leitores de placas eficazes na perseguição e resolução de casos.
A decisão sobre o balanço entre os benefícios e os custos dessa tecnologia recai sobre os americanos.
