Muçulmano envolvido em destruição de igreja no Paquistão recebe pena de 10 anos de prisão após condenação rara
Um tribunal antiterrorismo em Faisalabad, Paquistão, condenou Irfan Yousaf, operador de guindaste, a uma pena de 10 anos de prisão por sua participação nos ataques anticristãos ocorridos em 2023 na cidade de Jaranwala, província de Punjab. Yousaf foi considerado culpado por sua ação na demolição de uma igreja e uma residência vizinha durante os distúrbios. A condenação representa um raro caso de responsabilização efetiva por violência coletiva contra minorias religiosas no país, conforme destacado por líderes locais.
Os ataques, que tiveram início após acusações de profanação do Alcorão, resultaram na depredação de 26 igrejas e mais de 80 casas pertencentes à comunidade cristã. Yousaf é um dos milhares de muçulmanos denunciados por envolvimento nos incidentes. Apesar da sentença, outros 12 acusados no mesmo processo foram absolvidos por falta de provas suficientes, o que reacende preocupações sobre a dificuldade em punir todos os envolvidos.
A decisão judicial foi celebrada por representantes do Conselho Nacional de Igrejas do Paquistão (NCCP) e do Fórum de Implementação dos Direitos das Minorias (IMRF). Samuel Pyara, presidente da IMRF, explicou que a condenação foi possível graças à análise de provas forenses digitais. “A decisão foi tomada após a análise forense de um vídeo gravado por Wahida Mukhtar, uma cristã local, que mostrava Yousaf demolindo uma igreja e uma casa vizinha com a máquina. Peritos certificados pelo governo autenticaram as imagens e testemunharam perante o tribunal”, relatou Pyara à EWTN News.
Testemunhas cristãs enfrentaram pressões e intimidações durante o processo judicial, segundo informações da IMRF. Relatos incluem a pressão sobre um reclamante para quitar dívidas, o envenenamento de colheitas e a negação de acesso a terras. Jovens perderam empregos e um negócio de internet a cabo faliu.
“Testemunhas cristãs que identificaram membros da multidão, ajudaram a garantir suas prisões e testemunharam no tribunal foram pressionadas a assinar acordos de delação premiada. O medo não nos deteve. Essa sentença é resultado do nosso sacrifício”, afirmou Wahida Mukhtar.
Wahida Mukhtar, de 30 anos, cujas filmagens com celular foram cruciais para o caso, relatou ter sofrido uma fratura no pé ao ser atingida por um tijolo durante os ataques. Seu contrato de trabalho não foi renovado e ela precisou vender equipamentos de sua academia após a evasão de clientes muçulmanos.
Um representante da igreja, que pediu anonimato, ressaltou o valor simbólico da condenação, especialmente pela associação do guindaste utilizado por Yousaf ao símbolo eleitoral do partido Tehreek-e-Labbaik Pakistan (TLP), atualmente banido. O TLP é conhecido por defender as leis de blasfêmia do Paquistão e por organizar manifestações contra supostas ofensas religiosas.
Apesar da comemoração, líderes cristãos alertam que o episódio não deve mascarar as falhas do sistema em garantir responsabilização em casos semelhantes. A Comissão Nacional para a Justiça e a Paz (NCJP) apontou que, desde 2009, muitos acusados de liderar grandes ataques contra cristãos foram absolvidos. Sharon Shamir, defensora de direitos humanos, considera a condenação uma pequena parte da justiça necessária.
“Uma única condenação em uma tragédia tão grande quanto a de Jaranwala mal arranha a superfície. Dezenas de vidas foram destruídas, casas e igrejas foram arruinadas e uma comunidade inteira foi traumatizada. Onde estão os demais responsáveis? Quem responderá pelas falhas sistêmicas que permitiram tamanha violência?”, questionou Shamir, alertando que a responsabilização seletiva pode tornar a justiça apenas simbólica.
