Comunidade cristã milenar fala a língua de Jesus e luta para não desaparecer

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Enclave cristão no Iraque, berço de comunidades antigas e da língua de Jesus, luta contra o desaparecimento iminente após décadas de perseguição e guerra

Uma das mais antigas comunidades cristãs do mundo, situada em Ankawa, norte do Iraque, encontra-se à beira da extinção. Apesar de décadas de conflitos e perseguições que levaram a maior parte dos fiéis a deixar o país, a esperança persiste neste enclave que preserva o aramaico, idioma falado por Jesus. O bairro, localizado próximo à antiga cidadela de Erbil, é um ponto de referência único.

Dom Bashar Matti Warda, Arcebispo de Erbil, descreve o local como um centro de evangelização e um ponto de chegada do cristianismo no século I. As raízes de igrejas como a Assíria do Oriente, a Católica Caldeia e a Ortodoxa Siríaca remontam a esta região, tornando o Iraque o lar de algumas das comunidades cristãs mais antigas do planeta.

Contudo, essa presença milenar está diminuindo drasticamente. A população cristã tem encolhido nas últimas décadas. Dom Warda relata que crises, guerras e violência reabrem antigas feridas. Antes da invasão liderada pelos EUA em 2003, o Iraque abrigava cerca de 1,5 milhão de cristãos; atualmente, menos de 130.000 permanecem no país, uma situação que o arcebispo considera assustadora.

Ano Jawhar Abdoka, Ministro de Transporte e Comunicações e único membro cristão do gabinete curdo, aponta a onda de violência como principal fator de êxodo. Após a invasão americana, a ascensão do Estado Islâmico forçou mais de 100.000 cristãos a fugir. Abdoka detalha que 1.100 igrejas foram atacadas e 1.328 cristãos foram mortos apenas por sua identidade em dois anos, evidenciando o alvo contra a comunidade.

Dilan Adamat, que deixou o Iraque há décadas e optou por retornar, compartilha sua experiência. Tendo crescido na França, ele visitava Ankawa em feriados na infância e sentia falta de algo em sua vida, seu lado iraquiano. Para Adamat, o bairro representa não apenas sua origem, mas sua própria identidade, cercado por casas de parentes.

“Eu espero que as pessoas preservem esta área porque é parte da nossa herança aqui em Ankawa.”

Ele vê o Iraque como o berço de sua fé, língua e história, e teme que essa herança esteja em risco de desaparecer completamente em poucas gerações. Adamat alerta que, se nada for feito agora, será tarde demais em poucos anos.

Em 2019, Adamat abandonou uma bem-sucedida carreira jurídica na França para fundar a organização The Return em Ankawa. O projeto visa ajudar cristãos iraquianos a retornar à sua terra ancestral, normalizando a ideia de volta, mesmo após traumas de guerras e crises. Ele percebeu que muitos tinham o sonho de retornar.

Apesar da instabilidade do Iraque e das novas tensões regionais que levam famílias a questionar a segurança, a organização de Adamat auxiliou centenas no retorno desde 2023. Ele enfatiza que um dos pilares da fé cristã é a esperança, algo que via seus compatriotas perderem, e sua missão é reavivá-la.

O Ministro Abdoka enxerga sinais de esperança, especialmente na região do Curdistão iraquiano. Em Ankawa, conhecida como o “Vaticano do Iraque” ou “Vaticano do Oriente”, o número de igrejas saltou de apenas duas em 2003 para mais de 30 atualmente. No ano passado, a região sediou o primeiro café da manhã nacional de oração do Curdistão, promovendo um raro momento de unidade inter-religiosa.

O Pastor Malath Baythoon, da Christian Missionary Alliance Erbil, testemunha essa esperança. Ele fundou sua igreja em 2012 com duas famílias, e hoje é uma das maiores igrejas evangélicas do Iraque. Ele destaca a liberdade para trabalhar, a segurança e o apoio governamental para a expansão e as atividades religiosas.

“No Curdistão, dizemos a todo o Oriente Médio que a paz é possível e que a diversidade étnica e religiosa não é uma ameaça.”

Apesar dos desafios, a resiliência é notável. Adamat conclui que, embora a paz completa possa ser inatingível, a vida e a esperança perseverarão.

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