Jerusalém viveu quase 20 anos dividida por fronteira invisível e perigosa após guerra de 1948
Por quase duas décadas, Jerusalém foi uma cidade partida, separada em oeste sob controle israelense e leste, incluindo a Cidade Velha, sob domínio jordaniano. A divisão, conhecida como Linha Verde, persistiu desde o fim da Guerra de Independência de Israel em 1948 até a reunificação da cidade durante a Guerra dos Seis Dias em 1967.
O historiador israelense Oren Sapir explica que, embora marcada no mapa, a fronteira era pouco visível no terreno. “Você podia caminhar por um beco e cruzar a fronteira sem notar”, relatou Sapir. A sinalização mais concreta, como muros e cercas, demorou a ser implementada ao longo dos anos 1950.
A linha invisível podia ser fatal. “Você estaria andando na rua do lado israelense, e então veria um muro de concreto com uma placa em hebraico dizendo ‘Cuidado, atiradores à frente'”, descreveu Sapir. Judeus eram impedidos de visitar o Monte do Templo, e a proximidade com a fronteira expunha cidadãos a atiradores jordanianos. “Mais de uma vez houve tiroteios e combates”, acrescentou.
A própria Linha Verde nasceu de negociações de armistício, traçada por negociadores israelenses e jordanianos com lápis de cera. “Um lápis de cera faz uma marca larga, e às vezes você não tem certeza de quem detém o quê e onde isso termina”, comentou Sapir.
Um “Terra de Ninguém” administrado pela ONU separava as posições militares de ambos os lados. Sapir recorda piadas da época sobre crianças jogando futebol e tendo que acionar a ONU para recuperar a bola que caía nessa zona desmilitarizada.
Ao norte da Cidade Velha, Ammunition Hill foi palco de batalhas intensas na Guerra dos Seis Dias. Uri Goldflam, que brincou ali como criança antes do conflito, lembra de jogos infantis envolvendo a divisão do local em duas partes, cada uma com sua bandeira, em um cenário que incluía correr por trincheiras.
Um episódio peculiar ilustra a realidade da Jerusalém dividida. Em 1954, uma paciente do Hospital Francês de São Luís perdeu sua dentadura postiça, que caiu na Terra de Ninguém. A recuperação exigiu um esforço diplomático conjunto, envolvendo a ONU, autoridades jordanianas e israelenses, além de freiras do hospital, sob um cessar-fogo temporário marcado por uma bandeira branca. “É louco”, comentou o guia turístico Zahi Shaked, “mas quem diz que Israel não é um lugar louco? Nós amamos isso!”.
