Relatório: Cartéis e líderes indígenas alimentam violações à liberdade religiosa no México
Um novo relatório da Christian Solidarity Worldwide (CSW) lança luz sobre a crescente pressão à liberdade de religião ou crença no México. A pesquisa indica que as violações têm origens complexas, envolvendo tanto grupos do crime organizado quanto autoridades indígenas que operam sob sistemas de governança local tradicionais, conhecidos como “usos e costumes”. Essas dinâmicas criam um cenário desafiador para indivíduos que buscam praticar sua fé sem coerção.
O estudo, intitulado “Protection on Paper: The Situation of Freedom of Religion or Belief in Mexico,” aponta que as violações frequentemente emanam de regiões controladas por cartéis e comunidades indígenas onde as autoridades locais exigem a participação em celebrações religiosas comunitárias e o apoio financeiro a atividades da religião majoritária, predominantemente a católica. A recusa em participar pode acarretar severas penalidades, impactando direitos civis e oportunidades de vida.
Penalidades severas para quem recusa participação
As consequências para aqueles que optam por não participar de atividades religiosas impostas podem ser drásticas. Documentos revelam que as penalidades incluem a negação de direitos civis essenciais, restrições a oportunidades de emprego, exclusão do processo eleitoral, perda de acesso a serviços públicos básicos, prisão arbitrária e, em casos extremos, expulsão forçada de suas comunidades. A CSW registrou mais de 130 casos significativos de violações à liberdade religiosa nos últimos anos.
No estado de Oaxaca, por exemplo, autoridades governamentais reconheceram formalmente mais de 60 incidentes desse tipo nos últimos três anos. A situação é agravada pela influência crescente de organizações criminosas, que impõem restrições de movimento e toques de recolher em áreas sob seu controle. Tais medidas limitam a capacidade de igrejas se reunirem livremente e restringem atividades religiosas.
Ameaças a líderes religiosos e impunidade
Líderes religiosos que se manifestam contra a violência ou atividades criminosas são alvos frequentes de ameaças, ataques, desaparecimentos forçados e até mesmo assassinatos. O relatório da CSW destaca que as investigações sobre ataques a líderes religiosos são frequentemente inadequadas, com as autoridades tendendo a classificar tais crimes como delitos comuns, sem analisar a possibilidade de motivos religiosos ou perseguição direcionada.
Dados do Catholic Multimedia Centre indicam que, entre 1990 e 2025, a violência custou a vida de um cardeal, 62 padres, um diácono, quatro funcionários da igreja, 23 leigos católicos e um jornalista católico romano. Nesse mesmo período, dois padres foram dados como desaparecidos forçados.
Discriminação e insegurança generalizada
Preocupações com as condições gerais dos direitos humanos no México têm ganhado atenção internacional. Em setembro de 2025, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas alertou que a impunidade generalizada e a erosão das instituições legais contribuem para fazer do México um dos países mais perigosos da América Latina para defensores de direitos humanos.
Uma pesquisa nacional encomendada em 2022 revelou que mais de 3 milhões de membros de grupos religiosos minoritários enfrentam algum nível de tratamento discriminatório. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos, uma instituição autônoma da Organização dos Estados Americanos, também levantou preocupações, relatando um aumento de mais de 200% nos desaparecimentos no México na última década.
O watchdog Global Christian Relief informou que o México registrou o maior número de ataques verificados e abduções envolvendo cristãos em todo o mundo entre o final de 2023 e 2025, com 376 incidentes documentados. Pastores e trabalhadores de evangelismo cristão são frequentemente visados por cartéis de drogas, pois seus esforços ministeriais, voltados ao combate ao abuso de drogas e à mentoria de jovens, são vistos como um desafio à autoridade criminal e às tentativas de recrutamento.
Um chamado à proteção da fé
O relatório da Christian Solidarity Worldwide serve como um alerta crucial sobre os desafios enfrentados pela liberdade religiosa no México. A intersecção entre o poder dos cartéis e as práticas de autoridades indígenas locais cria um ambiente onde a fé pessoal pode se tornar motivo de perseguição. A falta de investigação adequada e a impunidade agravam o quadro, exigindo atenção contínua de órgãos nacionais e internacionais para garantir a proteção dos direitos humanos e religiosos no país.
