Carl Trueman: A reconstrução do Ocidente começa com o tratamento de outros como portadores da imagem de Deus
O teólogo Carl Trueman, um dos palestrantes do ARC 2026, apresentou suas reflexões sobre as causas do declínio na civilização ocidental e os caminhos para sua reversão. Em entrevista à Christian Today, Trueman detalhou os desafios atuais, enfatizando que nem o cristianismo cultural nem o nacionalismo representam soluções viáveis.
Segundo Trueman, o colapso da sociedade ocidental está intrinsecamente ligado à crença na autossuficiência e autonomia humanas. Ele argumenta que a tentativa de viver como seres independentes e autodeterminados desafia as estruturas sociais tradicionais, que se desenvolveram em eras pré-modernas, levando eventualmente à sua desintegração. A tecnologia moderna, ao habilitar essa autonomia, tornou essa visão um cenário plausível, exacerbando o problema.
O impacto da tecnologia e da inteligência artificial
A inteligência artificial (IA) surge como um novo e complexo desafio nesse cenário. Trueman aponta que a IA pode minar a própria noção de agência humana, aquilo que nos define como seres. Se a IA automatiza tarefas que exigem intervenção humana, corre-se o risco de uma desumanização sem precedentes.
Outro ponto levantado pelo teólogo diz respeito à cultura ocidental. A autodepreciação observada em algumas sociedades ocidentais, como destacado por Melanie Phillips, revelou-se um fator mais significativo do que Trueman inicialmente imaginava para o estado atual das coisas.
O papel da Igreja e os desafios específicos do Reino Unido
Trueman também critica o papel da Igreja em certos desenvolvimentos sociais. Ele cita o caso do divórcio sem culpa, no qual a Igreja Protestante, segundo ele, foi complacente e não ofereceu resistência. Essa passividade contribuiu para a redefinição do casamento, um processo do qual muitas igrejas se tornaram cúmplices.
Abordando a situação do Reino Unido, Trueman sugere que os problemas econômicos e culturais do país são profundos, e uma simples troca de liderança política não será suficiente. Ele pondera se uma crise significativa seria necessária para que os problemas fossem devidamente enfrentados.
Em comparação com os EUA, onde há uma administração executiva mais conservadora, o Reino Unido enfrenta desafios particulares, como a imigração muçulmana. Trueman ressalta que, embora nem todos os imigrantes representem um problema, a justaposição de culturas distintas em espaços geográficos limitados é inerentemente problemática, especialmente quando a cultura anfitriã carece de confiança, como parece ser o caso no Reino Unido.
Reconstruindo a confiança e a cultura
Para revitalizar a confiança na cultura britânica, Trueman defende a reinvigoração das instituições. Ele observa que várias gerações de ensino superior foram influenciadas por indivíduos que criticam a própria cultura, resultando em populações culturalmente empobrecidas. Uma cultura que se ensina ser sem valor gera falta de confiança.
Ele adverte sobre a atratividade do nacionalismo, especialmente o nacionalismo cristão emergente no Reino Unido. Trueman diferencia patriotismo de nacionalismo: o patriotismo é uma expressão de amor por seu país, enquanto o nacionalismo implica superioridade sobre outros. Essa distinção, perdida no discurso público, precisa ser recuperada.
Muitos no Ocidente, incluindo cristãos, parecem não apreciar plenamente o papel do cristianismo na formação da civilização ocidental e seus benefícios históricos. A visão comum tende a focar em aspectos negativos como escravidão e imperialismo, ignorando a força positiva do cristianismo em muitas frentes, como apontado por autores como Bijan Omrani.
O perigo da apropriação superficial do cristianismo
Trueman expressa preocupação com aqueles que adotam o cristianismo superficialmente, usando-o como arma contra oponentes ou como mera identidade. Ele adverte contra a confusão entre cristianismo e uma busca niilista por poder, que é letal para a fé. O nacionalismo cristão, como visto nos EUA, corre o risco de se dissolver em mero nacionalismo quando o cristianismo deixa de lhe conferir audiência.
O conceito de cristianismo cultural, defendido por figuras como Kemi Badenoch, é visto com ceticismo por Trueman em termos de sua capacidade de salvar o Ocidente a longo prazo. Embora prefira uma sociedade culturalmente cristã a uma anticristã, ele acredita que a longo prazo é necessária uma coerência metafísica para justificar crenças fundamentais. O cristianismo cultural, sendo mais uma expressão de gosto do que de verdade, pode não ser sustentável.
O caminho para a reconstrução: um olhar de longo prazo
Trueman enfatiza que a reconstrução da civilização ocidental é um projeto de longo prazo, cujas raízes dos problemas remontam a séculos. Ele compara a tarefa à construção de catedrais medievais, onde os construtores lançam fundações para as gerações futuras.
Ele aconselha a concentração de influência no nível local: família, vizinhança, comunidade, local de trabalho e sala de aula. A reconstrução deve começar com a prática cotidiana de tratar os outros como seres humanos criados à imagem de Deus. Essa abordagem humilde, mas poderosa, foi a maneira pela qual a igreja primitiva operou e obteve sucesso.
Em suma, a reconstrução exige ser gentil, hospitaleiro, respeitoso e defender a verdade. É um processo contínuo, focado no tratamento digno de cada indivíduo, reconhecendo seu valor intrínseco como portador da imagem divina.
