Desinformação sobre o avanço evangélico ganha força em redes sociais ao atribuir crescimento religioso a supostas operações secretas da inteligência
Uma narrativa infundada que associa o crescimento das igrejas evangélicas na América Latina e na Espanha a estratégias financiadas pela CIA durante a Guerra Fria tem circulado intensamente em plataformas digitais. Segundo o portal Evangélico Digital, a teoria ignora pesquisas acadêmicas e documentos oficiais que desmentem qualquer coordenação centralizada da agência americana para fabricar movimentos religiosos.
O politólogo Santiago Armesilla tem sido uma das figuras centrais na disseminação dessa tese, defendendo publicamente a expulsão de evangélicos da Espanha ao classificá-los como um “cavalo de Troia do anglosionismo”. A retórica também encontrou eco em publicações que citam o chamado “informe Rockefeller” de 1969 como prova de uma conspiração para substituir o catolicismo.
Análise histórica e documental
Especialistas refutam a interpretação deturpada de documentos históricos. O antropólogo David Stoll, autor de referência sobre o tema, esclarece que o relatório apresentado a Richard Nixon apenas alertava para a vulnerabilidade da Igreja Católica frente à subversão, sem qualquer plano de financiamento para socavar a instituição por meio de missões evangélicas.
Quanto à relação da CIA com o clero, o Comitê Church do Senado norte-americano constatou em 1976 que, embora houvesse contatos pontuais de inteligência com missionários, não existia uma operação sistêmica de expansão evangélica. Normas adotadas em 1977 proibiram posteriormente qualquer vínculo entre a agência e clérigos.
Raízes do crescimento religioso
O aumento do número de fiéis evangélicos possui fundamentos históricos e demográficos autônomos, anteriores à criação da própria CIA. O historiador César Vidal ressalta que o protestantismo está presente no continente desde o século XVI, sofrendo perseguições inquisitoriais bem antes do período da Guerra Fria.
Na Espanha, o Observatório do Pluralismo Religioso aponta que o crescimento recente nos locais de culto, que saltaram de 2.944 em 2011 para 4.763 em 2025, está atrelado majoritariamente à imigração latino-americana. Além disso, o fortalecimento das igrejas locais, como a Filadélfia entre a comunidade cigana, reforça que o fenômeno se baseia em dinâmicas pastorais e sociais internas, e não em ingerência estrangeira.
