Mais de 20 famílias cristãs deixam suas casas no Paquistão após denúncias de blasfêmia envolvendo postagens em redes sociais
Mais de 20 famílias cristãs foram forçadas a deixar suas residências na vila de Jhulan, Paquistão, por receio de ataques de multidões muçulmanas. A situação se intensificou em 3 de julho após anúncios em alto-falantes de uma mesquita local acusarem o pastor Sajeel Robin de blasfêmia por meio de vídeos publicados nas redes sociais. Robin, natural da vila, reside atualmente nos Estados Unidos.
Joseph Nayyar, um defensor de direitos humanos de Hafizabad, província de Punjab, explicou que o pastor Sajeel Robin costuma compartilhar vídeos com debates religiosos e discussões sobre o Islã. Segundo Nayyar, o tio do pastor, Shamaun Masih, e seu irmão mais novo, Nabeel Robin, que permanecem na vila, teriam compartilhado tais vídeos em grupos de WhatsApp.
Líderes muçulmanos locais tomaram conhecimento do conteúdo e passaram a utilizar os alto-falantes da mesquita para incitar ações contra o que descreveram como “conteúdo blasfemo”. Cerca de 40 famílias cristãs residem na vila Jhulan.
Após o anúncio da mesquita, a polícia se dirigiu à área e recomendou que os moradores cristãos deixassem suas casas como medida preventiva contra a violência iminente. “A maioria das famílias cristãs fugiu apenas com os pertences que podiam carregar”, relatou Nayyar.
Para evitar ataques, as autoridades policiais levaram parentes do pastor Sajeel Robin. “A polícia levou o pai do pastor, Robin Masih, e seu tio materno, Shamaun Masih, sob custódia protetiva, enquanto seu irmão, Nabeel Robin, se escondeu para evitar a detenção”, informou Joseph Nayyar.
A intervenção policial, juntamente com a ação do chefe da vila e de moradores muçulmanos, foi fundamental para conter a escalada da violência. “A situação poderia facilmente ter virado violência se a polícia e os muçulmanos locais não tivessem intervindo”, destacou Nayyar. Ele acrescentou que líderes islâmicos foram exortados a não atacar cristãos inocentes e que medidas legais seriam tomadas, se justificadas, contra os responsáveis.
Um acordo foi alcançado após Robin Masih e Shamaun Masih emitirem um pedido de desculpas. Líderes muçulmanos divulgaram uma declaração assinada à polícia, declarando perdão aos dois homens, o que permitiu o retorno dos moradores cristãos às suas casas.
Embora nenhum boletim de ocorrência tenha sido registrado contra membros da família Masih até o momento, a possibilidade de ações judiciais não foi totalmente descartada, ponderou Nabeel Robin. O incidente remete a agosto de 2023, quando bairros cristãos em Jaranwala foram atacados após falsas acusações de blasfêmia contra dois cristãos, resultando na destruição de igrejas e residências.
O Paquistão, com uma população predominantemente muçulmana, figura entre os países mais difíceis para se viver como cristão, conforme a Lista Mundial da Perseguição 2026 da Portas Abertas.
