Igrejas evangélicas se tornam celeiro de talentos para orquestras eruditas no Brasil revelam dados e maestros
Um número expressivo de músicos que integram orquestras brasileiras tem suas raízes na formação musical oferecida por igrejas evangélicas. Destaca-se a Congregação Cristã no Brasil (CCB) como uma das principais origens desses instrumentistas, evidenciando uma tradição musical religiosa que remonta a séculos e se adapta aos novos tempos.
Segundo o maestro Cláudio Cruz, da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo, entre 80% e 90% dos músicos da formação têm ligação com igrejas pentecostais. A CCB, uma das maiores denominações evangélicas do país, com estimativas internas apontando para cerca de 4,5 milhões de membros, possui uma forte tradição musical em seus cultos, chegando a organizar formações instrumentais de grande porte.
A Congregação Cristã no Brasil preza pela humildade institucional, evitando o destaque individual e a remuneração de músicos e professores. Cláudio Moraes, em declaração, ressalta esse princípio: “Não há aqui reconhecimento do homem, do nome, da pessoa. Se o que temos veio de Deus, então a obra é de Deus, não daquele nome”. Essa filosofia molda a percepção sobre a prática musical dentro da igreja, focada na adoração e não no reconhecimento pessoal.
Trajetórias como a do violinista Jhony Santos ilustram essa influência. Ele iniciou seus estudos musicais aos sete anos na Congregação Cristã em Itaquaquecetuba (SP) e, mesmo atuando profissionalmente, mantém sua participação nos cultos. “Na igreja eu toco com o intuito de adorar. Ali não importa se alguém toca muito ou pouco, o importante é fazer música com o coração”, ele descreve.
A Assembleia de Deus, outra denominação com grande número de fiéis, também contribui significativamente para a formação musical. A violinista Otielen Luz, por exemplo, iniciou sua carreira musical nesta igreja, estudando teclado e depois violino, antes de ingressar na Escola de Música do Estado de São Paulo. Atualmente, ela rege um coral de jovens adultos em Osasco.
No entanto, existem diferenças nas práticas musicais entre as denominações evangélicas. Enquanto na Assembleia de Deus há mais liberdade em arranjos e na participação feminina em diversos instrumentos, a Congregação Cristã apresenta uma divisão mais rígida. Mulheres geralmente atuam como organistas, e instrumentos de sopro e cordas são tradicionalmente executados por homens, um reflexo que se nota na composição das orquestras profissionais, onde cerca de 22% dos músicos bolsistas da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo são mulheres.
Especialistas apontam que o crescimento da presença evangélica na formação musical está atrelado ao aumento de projetos sociais mantidos por igrejas em áreas periféricas, oferecendo aulas gratuitas de música e instrumentos. Iniciativas como a Associação Beneficente Projeto Elikya e a Fábrica de Artes da Igreja Batista da Lagoinha exemplificam esse movimento.
Esse cenário coincide com a expansão do número de evangélicos no Brasil. Dados do Censo de 2022 indicam que a população evangélica saltou de 21,6% em 2010 para 26,9%, enquanto a católica diminuiu de 65,1% para 56,7%. Esse crescimento consolida a influência das igrejas evangélicas na formação de músicos que hoje ocupam espaços relevantes no cenário cultural e musical brasileiro.
