Autoridades no Sudão utilizam manobras administrativas e disputas forçadas para enfraquecer e confiscar propriedades de comunidades cristãs locais
O governo do Sudão tem adotado estratégias que transcendem o uso da força física para atuar contra instituições cristãs no país. Relatos publicados pela International Christian Concern (ICC) indicam que a tática envolve o uso de documentos judiciais e ordens administrativas para fomentar divisões internas e facilitar a expropriação de terras e templos.
Um dos casos mais emblemáticos é o da Igreja de Cristo do Sudão, filial de Marzouq, fundada em 1982. A congregação, que atua como referência espiritual em Cartum há mais de quatro décadas, enfrenta agora a ameaça de transferência de propriedade ou venda forçada por intervenção estatal.
Sobre o modus operandi das autoridades, um pastor local que colabora com a ICC relatou a pressão constante enfrentada pelas lideranças. “Eles não vêm sempre primeiro com armas. Eles vêm com papéis, com promessas e com ameaças. Então eles dividem os pastores para que as ovelhas sejam fáceis de dispersar e a terra seja fácil de tomar.”
Intervenção estatal e insegurança jurídica
Registros judiciais confirmam que o Estado tem nomeado comitês próprios para gerir templos, ignorando as lideranças estabelecidas e promovendo a destituição de quem resiste. As consequências para os líderes religiosos incluem assédio legal, prisões, desaparecimentos e exílio forçado.
A situação de vulnerabilidade das comunidades cristãs agravou-se drasticamente com o início da guerra em 2023. O conflito resultou em saques e destruição de instalações religiosas em Cartum, além de episódios de marginalização relatados ao enviado pessoal do Secretário-Geral da ONU, Pekka Haavisto, durante reuniões com líderes locais em setembro.
“Quando uma igreja que existe desde 1982 é subitamente informada de que já não pertence às pessoas que oraram e se sacrificaram por ela, a ferida vai mais fundo do que a perda de um edifício. Isso diz a cada fiel que até a casa de Deus não está segura”, lamentou o pastor entrevistado pela ICC.
Apesar da pressão, as lideranças religiosas afirmam que não pretendem recuar em sua missão espiritual. O foco atual, segundo os relatos, é buscar solidariedade internacional e apoio através de orações diante dos contínuos desafios impostos pelas decisões administrativas e ordens judiciais em um cenário de guerra.
