Quase todas as igrejas protestantes fechadas na Argélia enquanto cristãos cultuam no “subterrâneo”

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Igrejas protestantes fechadas na Argélia forçam cristãos a cultuar clandestinamente

A Argélia viu o fechamento de quase todas as suas igrejas evangélicas em uma onda de repressão que se intensificou a partir de 2017. Como resultado, cristãos no país, onde 99% da população é muçulmana, foram forçados a se reunir em locais secretos, como casas, garagens ou sob oliveiras, em um movimento que descrevem como um “exílio interno”. Essa situação priva muitos de orientação espiritual regular e os expõe a desafios como heresias e divisões internas, muitas vezes facilitadas pelo uso da internet e das redes sociais.

Apesar das adversidades, há relatos de cristãos que expressam gratidão, vendo o período como uma oportunidade de “purificação espiritual” para a construção de igrejas mais fortes e maduras. “Os crentes mantêm laços fraternos dentro de pequenos grupos familiares”, relatou um líder comunitário. “Celebramos a Santa Ceia e batismos privadamente, e dedicamos recursos significativos à ajuda caritativa, de acordo com os mandamentos bíblicos.”

A situação legal e o fechamento das igrejas

A repressão contra as comunidades cristãs protestantes na Argélia ganhou força após a deslegitimação do grupo que representava a maioria das igrejas evangélicas no país, a Igreja Protestante da Argélia (EPA). Embora a EPA tenha tentado obter o status legal novamente em 2014 e 2015, as autoridades negaram os recibos de registro obrigatórios, deixando o grupo em um limbo legal. Este contexto serviu de pretexto para o fechamento forçado de 46 das 47 igrejas afiliadas à EPA entre 2017 e 2019. Apenas uma igreja-sede em Argel permanece operacional, em parte devido à presença de estrangeiros e diplomatas.

O presidente da EPA, Salah Chalah, tem permanecido na Argélia para representar o movimento e descreveu a comunidade protestante como pequena e frágil, mas fiel diante da opressão. “Quando um membro sofre, todo o corpo sofre”, afirmou Chalah, que continua a buscar a coexistência pacífica e a liberdade religiosa.

Pressão governamental e desafios

A presidência de Abdelmadjid Tebboune, iniciada em dezembro de 2019, marcou uma mudança em relação à administração anterior, que demonstrava maior flexibilidade. O governo atual, invocando o status do Islã como religião de estado, nega direitos de vida pública a convertidos do Islã. A forte presença protestante na Região da Cabilia leva os serviços de segurança a associar a atividade cristã ao Movimento para a Autodeterminação da Cabilia (MAK), classificado como organização terrorista desde 2021. Essa politização leva o regime a apresentar a liberdade religiosa como uma ameaça à segurança nacional.

Essa política resultou em uma série de ataques judiciais e obstáculos materiais. Desde 2018, cristãos acumularam entre 58 e 64 condenações criminais. O vice-presidente da EPA, Youcef Ourahmane, foi sentenciado a um ano de prisão em novembro de 2023 por organizar um retiro espiritual. Hamid Soudad passou quase três anos preso por supostamente “insultar o Islã” relacionado a uma caricatura no Facebook, antes de receber um indulto presidencial. Outros casos incluem Slimane Bouhafs, um defensor de direitos humanos e convertido, que foi torturado e preso após ser deportado da Tunísia, mesmo possuindo status de refugiado da ONU. Um cristão anônimo aguarda decisão da Suprema Corte após receber uma sentença por compartilhar cursos bíblicos online.

Legislação restritiva e o cotidiano dos cristãos

A legislação argelina, como a Ordenança 06-03 de 2006, desempenha um papel crucial na restrição da liberdade religiosa. Esta lei limita o culto a edifícios aprovados por uma comissão que raramente se reúne, criando um impasse administrativo. Além disso, pune qualquer ato que possa “abalar a fé de um muçulmano” com penas de prisão de dois a cinco anos, criminalizando efetivamente atos simples como possuir Bíblias ou realizar discussões espirituais privadas.

A escassez de Bíblias e livros cristãos é outro desafio significativo, pois os funcionários da alfândega confiscam sistematicamente esses materiais, mesmo quando trazidos do exterior. Um líder cristão descreveu a situação como “indiscutivelmente difícil”, pois a falta de comunhão é um obstáculo, mas reafirma que “o trabalho de Deus não pode parar”.

Visita papal e a realidade para os cristãos

A visita do Papa Francisco à Argélia em abril de 2026 foi vista por alguns como uma vitrine diplomática. Apesar da cobertura midiática e dos recursos gastos pelo governo argelino para recepcionar o pontífice, a visita não trouxe alívio concreto para os cristãos locais perseguidos. O presidente da EPA, Pastor Chalah, esteve presente em um encontro com o Papa, mas a questão da privação dos locais de culto protestantes foi amplamente ignorada. A visita oficial pareceu priorizar o reaproximamento com autoridades muçulmanas em detrimento dos cristãos do país, sem menções às restrições religiosas ou ofertas de soluções.

A EPA continua a solicitar ao Ministério do Interior a renovação de seu registro oficial e a reabertura de seus locais de culto. A Argélia figura na 20ª posição na Lista Mundial da Perseguição 2026 da Open Doors, que lista os 50 países onde é mais difícil ser cristão.

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