Historiador israelense defende que omitir raízes judaicas empobrece a interpretação bíblica e gera equívocos históricos
Ignorar o contexto judaico ao ler a Bíblia pode levar a uma compreensão superficial e até mesmo a conclusões equivocadas sobre os textos sagrados. Ariel Horovitz, historiador e antropólogo israelense, enfatiza que muitos cristãos perdem a profundidade do relato bíblico por não estudarem a história e a cultura do povo judeu. Em entrevista, ele apontou que o conhecimento histórico e arqueológico é fundamental para uma análise mais aprofundada da Palavra de Deus.
Horovitz, que dirige o Moriah International Center, explicou que a falta desse entendimento impede a total apreensão do conteúdo bíblico. “Muitas pessoas conhecem a história da viúva que dá uma moeda [de oferta no templo]. Ontem mesmo eu tive nas minhas mãos a moeda original, chamada de prutá em hebraico, que é um centavo. Você já não precisa imaginar as histórias bíblicas. Você pode ver, pode tocar, pode ver inscrições. Você já não precisa imaginar reis, não precisa imaginar sinagogas. Você vê isso com seus próprios olhos. Então isso dá uma dimensão bem mais profunda da compreensão do texto bíblico”, relatou.
O historiador ressaltou que interpretar a Bíblia sob a ótica do século XXI distorce seu significado original. “Por exemplo, por que Jesus converte água em vinho no milagre de Caná? Por que não suco de laranja? Porque no judaísmo, você não pode se casar se não tem vinho. É como se você estivesse indo fazer um trâmite no banco sem documento. Você não pode fazer o trâmite”, exemplificou.
Ariel Horovitz também desmistificou crenças comuns sobre o cristianismo e o judaísmo. “Muitos acreditam que Jesus, por exemplo, criou uma nova religião ou que abandonou o judaísmo, ou falam: ‘Por que os judeus não seguiram Jesus?’ Os judeus seguiram Jesus. Pedro era o quê? Muçulmano? Budista? Paulo era o quê? Paulo não era cristão. Nunca se converteu ao cristianismo, porque o cristianismo não existia nessa época”, defendeu. Ele esclareceu que o cristianismo é uma evolução posterior, com base nos ensinamentos de Jesus e Paulo.
O especialista refutou veementemente a ideia de que o povo judeu condenou Jesus. “É um mito. O povo não entregou Jesus. Quem entregou Jesus foram alguns membros do Sinédrio, que era formado por sacerdotes”, argumentou. Horovitz alertou para as perigosas consequências de atribuir essa culpa a um povo inteiro, citando massacres e o Holocausto como exemplos de antissemitismo decorrente dessa calúnia histórica.
“Por isso é importante entender a história, entender os detalhes. Uma leitura rasa te leva a conclusões erradas. Se o cristão não entende esse contexto judaico, está perdendo a metade da história ou mais. Fica uma leitura bem rasa”, concluiu.
Descobertas arqueológicas têm contribuído para essa compreensão. Horovitz mencionou uma cerâmica de 2.200 anos com um versículo bíblico visível apenas por infravermelho. “Então isso é emocionante, é sentir que você faz parte de um elo de uma cadeia muito maior ao longo dos séculos e a arqueologia nos permite ter essas revelações”, declarou.
Fundado há 15 anos em Jerusalém, o Moriah International Center busca disseminar conhecimento histórico, sociológico, arqueológico e científico sobre a Bíblia, inclusive através de viagens. “Uma viagem com a Moriá é estar com historiadores e arqueólogos que vão explicar de forma mais profunda, é, o contexto bíblico, de Davi até Jesus”, explicou Horovitz. Ele destacou a experiência de visitar locais como o santuário do livro, onde estão os Manuscritos do Mar Morto, com explicações aprofundadas por especialistas.
