Especialistas e juristas levantam debate sobre a proteção de crianças frente à exposição em redes sociais, criticando a prática
A prática de compartilhar imagens de crianças em plataformas digitais tem gerado crescente preocupação entre especialistas em segurança digital, educadores e profissionais do Direito. O que antes era considerado um simples registro familiar agora é analisado sob a perspectiva da privacidade, do consentimento e das potenciais consequências futuras para os menores.
Dados alarmantes da SaferNet Brasil revelam a dimensão do problema. Em 2023, a organização registrou mais de 71 mil denúncias relacionadas a abuso sexual infantil online, o maior volume já contabilizado. No ano seguinte, aproximadamente 64% de todas as denúncias recebidas pela entidade mantiveram-se ligadas a esse tipo de conteúdo, demonstrando como imagens de crianças podem ser indevidamente utilizadas para fins criminosos.
Influenciadora digital Sheylli Caleffi defende a incorporação do pedido de autorização como prática rotineira
A influenciadora digital Sheylli Caleffi tem promovido em suas plataformas a importância de solicitar autorização antes de fotografar ou publicar imagens de crianças. Segundo Caleffi, essa conduta dos adultos funciona como um modelo para os menores, ensinando que a imagem alheia merece consideração e respeito.
A juíza Vanessa Cavalieri, titular da Vara da Infância e Juventude, aprofunda essa discussão ao questionar a natureza das postagens em redes sociais. Ela observa que essas plataformas não devem ser equiparadas a álbuns de família, pois funcionam como espaços públicos e mercadológicos.
Mesmo perfis configurados como privados podem resultar na divulgação de conteúdo para dezenas ou centenas de pessoas. A magistrada sugere que, para compartilhar momentos com familiares próximos, o envio restrito atende à mesma finalidade sem expor a criança a audiências amplas.
Empresária Bella Alves reavalia a exposição do filho e destaca a importância da privacidade infantil
A empresária Bella Alves compartilhou sua decisão de remover todas as imagens de seu filho das redes sociais após constatar o desconforto da criança diante das câmeras. O relato reflete uma tendência crescente entre pais que reavaliam o volume de registros, questionando se a busca por engajamento não estaria ofuscando a vivência real dos momentos.
Para Alves, a maturidade digital implica o entendimento de que o ambiente doméstico deve ser um espaço de proteção, não de exibição. Ela enfatiza que a escolha de aparecer deve ser da criança, quando esta tiver condições de expressar sua vontade.
Especialistas orientam pais sobre publicação responsável de imagens infantis
Diante deste cenário, especialistas recomendam uma série de reflexões antes da divulgação de imagens infantis:
- Necessidade da exposição pública Avaliar se a exposição é realmente necessária ou se um compartilhamento privado com familiares seria suficiente.
- Autorização da criança Incentivar a criança, mesmo as pequenas, a expressar concordância ou recusa em ter sua imagem publicada.
- Projeção futura Considerar se o conteúdo poderá causar desconforto à criança no futuro, quando ela tiver mais idade.
- Exposição de dados pessoais Evitar a publicação de informações como localização, rotina escolar, uniforme ou nome completo da criança.
- Equilíbrio entre registro e vivência Questionar se o foco em registrar o momento com o celular não está impedindo a vivência plena dele.
- Reciprocidade ética Refletir se gostaria que conteúdo semelhante fosse publicado a seu próprio respeito.
- Finalidade da postagem Distinguir claramente entre compartilhamento afetivo e a busca por engajamento ou monetização.
- Controle sobre o alcance Entender que perfis fechados não garantem segurança absoluta, pois capturas de tela, compartilhamentos e downloads ainda são possíveis.


