Molécula sintética desenvolvida na UFRJ demonstra potencial revolucionário para tratamento de lesões medulares graves, com resultados experimentais iniciais animadores
Uma nova esperança surge para pacientes com lesões medulares graves, como paraplegia e tetraplegia. A polilaminina, uma molécula sintética desenvolvida a partir da laminina, proteína naturalmente presente no corpo humano, tem apresentado resultados promissores em fases experimentais. A pesquisa é liderada pela pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A polilaminina atua estimulando a reconexão de axônios, prolongamentos dos neurônios essenciais para a comunicação neural. A laminina, base para o desenvolvimento da polilaminina, desempenha um papel crucial na formação do sistema nervoso durante o período embrionário. Tatiana Coelho de Sampaio, em entrevista, destacou a estrutura da laminina, comparando-a a uma cruz, e a polilaminina como “várias de mãozinhas dada”, em alusão ao seu potencial de reconexão.
A cientista brincou sobre a natureza da descoberta, mencionando de forma descontraída: “Não conta para ninguém. Graças a Deus, ainda não saiu isso, porque no dia que sair eu estou perdida, porque aí vão dizer mesmo que é proteína de Deus”.
Resultados experimentais iniciais e o caso de Luiz Otávio Santos Nunez
Um estudo experimental realizado pela UFRJ em parceria com o laboratório Cristália envolveu oito pacientes com lesão medular grave. Desses, seis recuperaram parte da mobilidade, e um paciente voltou a andar. Este estudo preliminar, conduzido entre 2018 e 2021 em ambiente acadêmico e ainda sem revisão por pares, aponta para a eficácia da polilaminina.
O momento ideal para a aplicação da substância é em até 72 horas após a lesão. Casos crônicos, com mais de três ou quatro meses, apresentam maior dificuldade de regeneração devido a processos patológicos já estabelecidos.
O primeiro paciente a receber o tratamento experimental no Brasil foi Luiz Otávio Santos Nunez, um militar de 19 anos que ficou tetraplégico após um acidente com arma de fogo. Doze dias após a aplicação no Hospital Militar de Campo Grande, ele recuperou o movimento na ponta de um dos dedos.
Próximos passos e acesso à polilaminina
Atualmente, a polilaminina encontra-se em fase experimental. Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início do estudo clínico de fase 1, que terá como objetivo avaliar a segurança da substância em cinco voluntários com lesões agudas completas da medula espinhal torácica.
Paralelamente aos estudos oficiais, aproximadamente 19 pacientes já tiveram acesso à polilaminina por meio de decisões judiciais. Nesses casos, o laboratório Cristália informa que fornece as doses gratuitamente, mas o acompanhamento é passivo e não integra o protocolo de pesquisa.
Especialistas alertam que, apesar dos resultados animadores, são preliminares. Estima-se que até 30% dos pacientes com lesão medular aguda possam ter alguma recuperação espontânea, o que reforça a necessidade de estudos controlados para comprovar definitivamente a eficácia da polilaminina.


