Mandato de mantras védicos e regionais em aulas diárias ignora diversidade e gera protestos de comunidades e partidos políticos na Índia
Uma ordem recente do governo estadual de Chhattisgarh, na Índia, para a recitação diária de cantos e orações hindus em escolas públicas gerou forte oposição. A medida, que exige a entoação de 10 mantras védicos e regionais, incluindo o Gayatri Mantra e a Saraswati Vandana, é vista por críticos como uma violação dos princípios de secularismo e um desrespeito às culturas e costumes tribais indígenas. A iniciativa partiu do Departamento de Educação Escolar do estado e coincide com o reinício das aulas após um longo recesso de verão devido ao calor intenso.
O estado de Chhattisgarh, com uma população predominantemente tribal, é governado pelo partido nacionalista hindu Bharatiya Janata Party (BJP), o mesmo que lidera o governo nacional sob o Primeiro-Ministro Narendra Modi. A nova diretiva estabelece horários específicos para as práticas religiosas ao longo do dia escolar, incluindo a manhã, o almoço e a dispensa ao final do período, marcando cada momento com diferentes cantos. Além do hino nacional, o roteiro inclui o Deep Mantra, Saraswati Vandana, Guru Mantra, Bhojan Mantra (durante as refeições), Gayatri Mantra e Shanti Mantra.
O governo estadual defende a regra, argumentando que seu objetivo é incutir disciplina, valores morais e consciência cultural nos alunos. No entanto, partidos de oposição, como o Congresso, e comunidades tribais acusam o governo do BJP de promover uma agenda ideológica por meio das salas de aula.
Comunidades tribais e oposição criticam imposição religiosa e ideológica
Organizações tribais e regionais apresentaram memorandos formais ao governo, alegando que a imposição dessas práticas religiosas específicas contraria os artigos 25 e 28 da Constituição Indiana, além da Quinta Emenda, que visa proteger a identidade cultural indígena. O partido do Congresso e grupos de direitos das minorias expressaram preocupação com o potencial de alienação de estudantes de outras fés e com o comprometimento do tecido secular das escolas estaduais.
Líderes tribais afirmam que os Adivasis, ou povos tribais, não se consideram hindus e possuem tradições religiosas e culturais distintas. Eles interpretam a diretiva como uma imposição da ideologia do Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS) com o intuito de apagar a identidade Adivasi local. Manish Kunjam, político tribal sênior e ex-membro da Assembleia Legislativa, lidera o Sarva Adivasi Samaj, um importante corpo que representa diversas comunidades tribais em Chhattisgarh. O grupo condenou o circular e exigiu sua retirada imediata e incondicional.
“Estamos falando de uma tentativa calculada, impulsionada pelo RSS, de impor à força práticas religiosas hindus sobre crianças tribais.”
Kunjam classificou a diretiva como uma “tentativa impulsionada pelo RSS” para impor práticas religiosas hindus às crianças tribais e um assalto ideológico. Ele argumenta que transformar o dia escolar em sessões de cantos estruturadas, desde a assembleia matinal até a dispensa, desvia o foco dos estudos acadêmicos e prejudica o propósito principal da educação formal.
Críticas apontam “saffronização” da educação e violação de direitos fundamentais
Organizações cristãs e seculares em Chhattisgarh também condenaram a imposição de orações, mantras e rituais hindus em escolas públicas. Eles descrevem a política como a “saffronização” da educação, um termo que se refere à implementação de agendas nacionalistas hindus em instituições e na sociedade indiana. Essas organizações afirmam que o governo está deliberadamente obscurecendo a linha entre consciência cultural e doutrinação religiosa ao tornar os cantos hindus obrigatórios.
A Association for the Protection of Civil Rights (APCR) e diversas entidades religiosas cristãs declararam que forçar crianças, incluindo as das comunidades cristã e tribal, a participar de rituais hindus viola os direitos fundamentais de cada estudante e professor à prática de sua própria religião. A liderança Adivasi já encaminhou um memorando formal ao governador de Chhattisgarh, ao Ministro-Chefe Vishnu Deo Sai, e ao Ministro da Educação Escolar, alertando que, caso a exigência obrigatória não seja revogada, grupos tribais organizarão protestos em massa em Bastar.
