Papa Francisco anuncia visita sem precedentes à Argélia em meio a desafios para a comunidade cristã local
O Papa Francisco manifestou a intenção de visitar a Argélia na próxima primavera, após o término do Ramadã. Esta potencial visita marca um momento histórico, pois nenhum pontífice reinante jamais esteve no país. A notícia surge em um contexto de crescentes restrições à prática religiosa cristã na nação norte-africana, incluindo o fechamento de mais de 40 igrejas protestantes em menos de uma década. Peter Augustin, que gerencia uma conta de mídia social dedicada à cultura Kabyle no Reino Unido, avalia que a visita papal “pode ser um divisor de águas para os cristãos do país”, oferecendo conforto e fortalecendo o diálogo inter-religioso. Ele sugere que a presença do Papa pode “ajudar a aliviar” as restrições legais que têm levado ao fechamento de locais de culto e ao assédio a fiéis.
A Argélia, com uma população de aproximadamente 48 milhões de habitantes, é predominantemente muçulmana, com mais de 98% da população professando a fé islâmica. No entanto, o cristianismo tem raízes antigas na região, com São Agostinho, uma figura proeminente do cristianismo primitivo, sendo originário de terras hoje conhecidas como Argélia. O movimento evangélico observou avanços significativos no início do século XXI, especialmente entre os Kabyles, um grupo étnico nativo das regiões montanhosas do norte. Embora os cristãos representem uma pequena minoria entre os Kabyles, sua proporção é consideravelmente maior do que no restante do país.
Augustin também aponta que cristãos argelinos enfrentam assédio crescente, atribuído a fatores como o “crescente sentimento islamista” e a percepção do cristianismo como uma “importação ocidental”. A legislação vigente, que regula a prática religiosa não muçulmana, tem sido aplicada de forma mais rigorosa desde 2017, dificultando a prática da fé, a organização de eventos e até mesmo a reunião de fiéis. Casas de culto não muçulmanas precisam renovar seu registro, um processo frequentemente negado.
As autoridades argelinas também têm agido para restringir atividades cristãs online. Em dezembro de 2024, um grupo cristão em redes sociais com cerca de 50.000 seguidores foi desativado. Nos últimos anos, mais de 50 cristãos enfrentaram processos legais por atividades religiosas, forçando muitos a praticar sua fé em segredo. Apesar de não ser designada como País de Preocupação Particular (CPC) pelo Departamento de Estado dos EUA, a Argélia figura na Lista de Observação Especial, indicando perseguição a minorias religiosas.
A situação dos católicos, a maioria imigrantes de países subsaarianos, tende a ser menos hostil em comparação aos protestantes. Contudo, também enfrentam restrições, como o fechamento da Caritas Argélia, braço humanitário da Igreja Católica, em outubro de 2022. O arcebispo de Argel, Jean-Paul Vesco, declarou que a igreja “continuará a fazer o bem sem fazer barulho” e que não deseja “entrar em conflito com as autoridades”.


