Comunidade de Tulsa encontra na fé e na educação caminhos para curar as feridas de um dos mais brutais ataques raciais da história americana mais de um século após o evento.
Mais de 100 anos após o notório Massacre de Tulsa, um dos ataques raciais mais sombrios dos Estados Unidos, a memória do evento persiste como um doloroso lembrete, mas também como um catalisador para a cura. Moradores do histórico Distrito de Greenwood, em Tulsa, acreditam que a história não pode ser esquecida para que tragédias semelhantes não se repitam, encontrando na fé e na educação pilares essenciais para superar as cicatrizes de um passado violento. Michelle Burdex, do Greenwood Cultural Center, relata que o ato de contar a história ainda provoca emoções intensas, como lágrimas e raiva, após três décadas dedicadas a narrar os eventos.
O período entre 1908 e 1921 foi marcado pela ascensão de uma comunidade afro-americana próspera no Greenwood, conhecida como Black Wall Street. Em meio à segregação e ao ódio racial, negócios floresceram, famílias prosperaram e uma classe média negra começou a emergir. Contudo, esse desenvolvimento gerou um sentimento de inveja e preconceito entre parte da população branca. “Ao longo dos anos, isso irritou muitos brancos. Como eles ousavam ser bem educados? Eles tinham casas bonitas, se vestiam bem. Como eles ousavam andar pela rua sorrindo e se divertindo?”, descreve Burdex o clima da época.
A tensão atingiu seu ápice em 1921. A acusação de que um adolescente negro teria agredido uma mulher branca em um elevador dentro de um prédio restrito a brancos no centro da cidade serviu como estopim. Entre 30 de maio e 1º de junho daquele ano, Tulsa foi palco do que é considerado o pior massacre racial da história dos Estados Unidos. Estima-se que pelo menos 300 pessoas morreram, em uma população negra que variava entre 10 a 12 mil habitantes. Cerca de seis mil pessoas foram mantidas em campos de internamento sob o pretexto de proteção, uma medida que, segundo Burdex, deixou suas casas e negócios vulneráveis à pilhagem por parte de “white riders”, resultando em um número de desaparecidos entre quatro a seis mil pessoas.
A destruição do Distrito de Greenwood deixou feridas profundas que ainda clamam por cura. Lori Campbell, oficial aposentada da Marinha e membro dos Serviços de Família e Crianças de Tulsa, enfatiza a importância do diálogo honesto para a superação de traumas. “Acredito que as pessoas precisam ser capazes de conversar. Como, ouvir minha história e não apenas descartá-la, só porque se passaram muitos anos. Todos precisam se unir. E nós só precisamos ouvir e sentir a dor”, afirma Campbell.
A busca por cura e esperança é simbolizada em diversas manifestações culturais e comunitárias. Mary Williams, residente de Tulsa, compartilhou uma pintura de sua filha falecida, que retrata igrejas queimadas sob a legenda “As chamas do ódio não puderam destruir o fogo da fé”. Essa imagem, segundo ela, aponta para Deus como um caminho de esperança e redenção. A crença na resiliência e no desejo de seguir em frente é palpável em iniciativas como a parada em homenagem a Martin Luther King Jr., onde pessoas de todas as raças se unem, apesar do frio, para celebrar a paz e a unidade. “É um novo dia, mas o sonho continua o mesmo. O sonho de unidade. O sonho de paz. O sonho de igualdade”, declarou Antonio Thompson, da Sociedade Martin Luther King Jr.
O ex-membro do Conselho Municipal de Tulsa, educador e líder comunitário, Jack Anderson, dedicou sua vida a promover a reconciliação na cidade. “Fiz de toda a minha vida uma jornada para garantir que o Norte de Tulsa e o Sul de Tulsa se unam como um só. Em vez de o conto de duas cidades, vamos torná-la uma cidade. Ambas de pé para tornar esta cidade melhor”, defende Anderson.
Na esfera econômica, a Dra. Lana Turner-Addison, da North Tulsa Economic Opportunity e Greenwood Legacy Corporation, lidera projetos de desenvolvimento econômico público e privado com o objetivo de promover a cura e construir riqueza intergeracional no Norte de Tulsa. “Continuo esperançosa. Sinto que Tulsa pode mostrar à nação como isso pode ser feito. Basta continuar superando o barulho. E todos nós, todas as raças, queremos futuros mais brilhantes para nossas famílias”, expressa.
Um testemunho visual da transformação de Tulsa está na escultura do John Hope Franklin Reconciliation Park, que ilustra as três fases da mudança na Black Wall Street. A primeira fase, “Hostilidade”, retrata um homem branco armado pronto para atacar o Greenwood. A segunda, “Humilhação”, mostra um homem negro em rendição, simbolizando a dor e a perda de vidas e bens. A terceira fase, contudo, apresenta um homem negro sorrindo, segurando um bebê e olhando para o futuro, uma representação artística da perseverança, resiliência e fé do povo.
Questionada sobre suas esperanças para Tulsa e para a nação, Mary Williams ecoa um apelo espiritual, citando 2 Crônicas 7:14: “Para a nação, oro para que venhamos a nos unir, nos afastemos de nossos maus caminhos, busquemos a face de Deus, para que Deus possa nos ouvir dos céus, perdoar nossos pecados e curar nossa terra.” A passagem bíblica enfatiza a busca por humildade, oração e arrependimento como caminhos para a cura divina.


