Pesquisas revelam estagnação do presidente Lula e avanço de Flávio Bolsonaro, com forte resistência evangélica como fator chave
Levantamentos de intenção de voto divulgados recentemente indicam um cenário de estagnação para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) demonstra crescimento consistente. Os dados acenderam um alerta no Palácio do Planalto, pois revelam a persistência da alta rejeição ao governo entre o eleitorado evangélico, grupo que se mostra resistente às políticas atuais e mais propenso a apoiar candidaturas de direita.
Dados da pesquisa AtlasIntel/Bloomberg apontam Flávio Bolsonaro como a opção mais viável da oposição para enfrentar Lula. Seu avanço é atribuído tanto à transferência de votos do ex-presidente Jair Bolsonaro quanto à insatisfação de parcelas do eleitorado com a gestão petista. Um levantamento do Paraná Pesquisas, divulgado na sexta-feira (27), colocou o senador em empate técnico com Lula no primeiro turno e numericamente à frente em um cenário de segundo turno. O crescimento é atribuído à “força do sobrenome” e à rejeição ao governo, que, segundo o Datafolha, está em 37%, com aprovação estagnada em 32%.
O peso do eleitorado evangélico na disputa eleitoral
O comportamento do eleitorado evangélico, que representa 26,9% da população brasileira segundo o IBGE, é apontado como o principal fator de preocupação para a campanha petista. Este segmento possui uma capacidade de mobilização que excede seu peso demográfico.
Dados do instituto Ideia, coletados após o desfile da Acadêmicos de Niterói que homenageou Lula, indicam que 61,1% dos evangélicos se sentiram ofendidos ou perceberam preconceito na ala “Família em Conserva”, que satirizava a família tradicional e grupos conservadores. Quase metade desse segmento (48,3%) avalia que o episódio aumentará a polarização religiosa e política.
Essa percepção negativa reforça um quadro já desfavorável. Segundo a pesquisa Genial/Quaest, 61% dos evangélicos desaprovam o governo Lula, enquanto apenas 34% o aprovam. Um levantamento do Datafolha, divulgado em fevereiro, já havia mostrado uma queda de cinco pontos percentuais na aprovação presidencial entre esse público, que passou de 26% para 21%.
Iniciativas governamentais e o impacto do desfile de carnaval
Nos últimos meses, o governo tentou se aproximar de líderes religiosos através de recepções a bispos da Assembleia de Deus, sanção do Dia Nacional do Gospel e indicação de um advogado evangélico ao STF. Contudo, o desfile de Carnaval, com a presença de Lula, é visto por alguns como um obstáculo a esses avanços.
O deputado Otoni de Paula (MDB-RJ) descreveu o episódio como uma exposição da “inabilidade” do governo em lidar com pautas sensíveis ao eleitorado conservador. Analistas consultados pelo Valor Econômico avaliam que o mal-estar pode se estender e prejudicar articulações eleitorais.
Marco Antonio Carvalho Teixeira, da FGV, sugere que o presidente admita publicamente o erro para conter a crise. Juliano Spyer, antropólogo, considera que a inação pode ser pior. O ministro Sidônio Palmeira (Secretaria de Comunicação Social) classificou a repercussão como “oportunismo eleitoral”, mas integrantes da cúpula do PT admitem o agravamento do desgaste com o segmento religioso.
Cenário eleitoral e estratégias de campanha
A avaliação interna do governo é que é preciso reagir para reverter a perda de competitividade. Dados do Paraná Pesquisas indicam que 52,2% dos eleitores consideram que Lula não merece a reeleição.
O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (PT-SC), defende a mudança do foco para políticas públicas, comparando a gestão atual com a anterior e destacando resultados que beneficiam famílias evangélicas. Por outro lado, Flávio Bolsonaro aposta na consolidação da direita e na rejeição ao governo. Em um ato na Avenida Paulista, o senador afirmou que sua candidatura representa um “projeto de país” e uma alternativa à “incompetência do atual governo”.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, com forte influência entre mulheres e evangélicos, deve reforçar a campanha nos próximos meses, segundo o PL. O cenário para as eleições de outubro aponta para uma disputa acirrada, onde a capacidade de cada campo em consolidar seu eleitorado e atrair segmentos estratégicos, como o evangélico, será decisiva.


