A pós-modernidade impõe novos desafios à vivência religiosa com o surgimento de ‘indulgências’ simbólicas e terapêuticas
O cenário pós-moderno, marcado pela dissolução de certezas e pelo individualismo, alterou significativamente a forma como a espiritualidade é vivenciada. As tradicionais estruturas apostólicas que mediávamos a relação entre comunidade e transcendência estão sendo progressivamente substituídas por práticas místicas autônomas, líderes independentes, espiritualidades terapêuticas e experiências digitais. Neste contexto, conforme observa Daniel Ramos, ressurgem de maneira simbólica as “indulgências”, oferecendo respostas rápidas às angústias existenciais.
Essas novas “indulgências” não são sacramentais, mas sim de caráter emocional, terapêutico e performático. A modernidade tardia, como aponta Charles Taylor, tem produzido “uma espiritualidade do imediato”, onde cada indivíduo constrói sua própria compreensão do sagrado. A fonte original Guiame.com.br destaca que essa transformação leva o fiel a se tornar um “consumidor espiritual”, em vez de membro de uma tradição estabelecida.
Fragmentação da autoridade religiosa e a religiosidade como mercadoria
Jean-François Lyotard descreveu a pós-modernidade como o fim dos grandes discursos totalizantes. A religião, historicamente uma fonte de narrativa unificadora, enfrenta a fragmentação e a pluralização das fontes de verdade. O “saber é substituído por um fluxo de informações deshierarquizadas”, segundo Lyotard. Essa reconfiguração da autoridade religiosa se manifesta em novas plataformas de legitimação, como redes sociais e comunidades virtuais, muitas vezes com lideranças autoproclamadas.
Zygmunt Bauman, em sua análise da modernidade líquida, aponta que as relações tornam-se frágeis e utilitárias, e “a religiosidade contemporânea tende ao formato de mercadoria”. A espiritualidade passa a ser vista como um produto personalizável e descartável, gerando “bens espirituais imediatos” que funcionam como indulgências pós-modernas. Exemplos incluem campanhas de prosperidade, objetos ungidos e bênçãos digitalizadas, impulsionados por um marketing agressivo.
O renascer das “indulgências” em formatos contemporâneos
Historicamente associadas à remissão de penas temporais, as indulgências ressurgem hoje como promessas de cura espiritual ou emocional instantânea. Discursos que asseguram “quebra instantânea de maldições” ou “prosperidade imediata” operam como “atalhos misticistas”. A tecnologia potencializa essa tendência com bênçãos ao vivo, orações automatizadas e aconselhamentos por chat, configurando uma indulgência virtual, imediata e personalizada.
A fonte Guiame.com.br critica a vulgarização de elementos litúrgicos, como o uso excessivo de óleo, que esvazia seu sentido original. A orientação bíblica, por exemplo, em Tiago 5:14-16, restringe o uso do óleo aos enfermos, contrastando com práticas atuais que o transformam em um fetiche. Da mesma forma, propósitos de oração têm sido ressignificados, afastando-se da intimidade com Deus para se tornarem espetáculos públicos.
Substituição de ofícios apostólicos por misticismo e espetáculo
A estética do espetáculo religioso, com uso de fumaça, luzes e música intensa, cria ambientes de êxtase emocional. A figura do “pastor” é frequentemente substituída pelo “apresentador”, cuja autoridade deriva de sua performance. Movimentos contemporâneos oferecem “cura interior” e “auto-cura espiritual”, combinando elementos populares e cristãos, funcionando como indulgências terapêuticas que aliviam culpas sem exigir profunda mudança ética.
Charles Taylor observa que o indivíduo pós-moderno se torna “o árbitro final de sua própria experiência espiritual”, criando sua própria teologia, muitas vezes com a justificativa de “foi Deus que mandou”, mesmo que contradiga as escrituras. Isso leva à subjetivação da fé, onde a Igreja deixa de ser um “corpo” para se tornar uma “plataforma” individualizada.
Consequências teológicas e pastorais da subjetivação da fé
A dissolução da “apostolicidade da fé” resulta em uma fé privatizada e na fragmentação das comunidades. A subjetivação da hermenêutica cristã abre espaço para divergências e divisões, frequentemente fundamentadas em “sentimentos” pessoais sobre a vontade divina. Quando a religião é reduzida a sensações emocionais, perde-se profundidade ética, doutrinal e espiritual, gerando “ovelhas sem pastor”.
A fé apostólica, firme na doutrina e na comunhão, perde espaço para misticismos individualizados e práticas que funcionam como indulgências. A Igreja é chamada a dialogar com as demandas espirituais do homem pós-moderno, repensando sua linguagem e mediação, sem abdicar dos elementos constitutivos da fé apostólica, mantendo fidelidade à tradição enquanto se adapta a novos modelos de subjetividade espiritual.


