Famílias se magoam por falha em traduzir emoções e não por falta de amor

Mais lidas

A dificuldade em traduzir emoções gera conflitos familiares, diferentemente da falta de amor, segundo especialista

A raiz de muitas crises familiares não reside na escassez de afeto, mas sim na dificuldade em traduzir as emoções genuínas. Críticas podem ser manifestações de dor e o que é percebido como um ataque pode, na verdade, ser um pedido de ajuda.

O psicanalista Valceli Leite aponta que é comum famílias que se amam profundamente acabarem se ferindo pela incapacidade de escutar verdadeiramente, reagindo apenas ao que é ouvido.

Ouvir é um processo fisiológico, mas escutar exige um ato psíquico e espiritual. A orientação bíblica, citada em Tiago 1:19, sugere ser “pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar”, o que implica conter a impulsividade, suspender julgamentos e priorizar o outro em detrimento da própria defesa.

Essa prontidão para ouvir é vista, na Teoterapia, como uma validação espiritual da existência do outro. A sensação de não ser ouvido pode levar à percepção de não ser amado, mesmo quando o afeto existe.

A comunicação familiar pode ser compreendida através da Análise Transacional, que descreve três estados de ego: Pai (crítico ou normativo), Adulto (equilibrado e racional) e Criança (emocional e reativa). Os conflitos, muitas vezes, não estão no conteúdo da fala, mas na origem e no destino da mensagem.

Um exemplo prático ilustra a dinâmica: quando uma esposa diz “Você nunca me ajuda em nada”, o que é ouvido como uma crítica proveniente do estado Pai, pode ter como origem uma criança ferida que expressa “Eu estou cansada e me sentindo sozinha”.

A interpretação de uma crítica como um ataque, seguida por uma resposta defensiva ou impositiva, resulta na escalada do conflito. Leite sugere que toda reclamação carrega uma necessidade não atendida e toda irritação pode ser um afeto deslocado.

A escuta ativa é apresentada como uma intervenção terapêutica eficaz. Através do espelhamento emocional, técnica utilizada na Teopsicoterapia Integrativa, busca-se devolver ao outro o que ele sente, sem julgamento, correção ou defesa. Uma resposta como “Você está se sentindo sobrecarregado e sozinho, é isso?” pode reduzir a defesa do outro, desacelerar o sistema emocional e restaurar o vínculo.

Validar a emoção não significa concordar, mas sim reconhecer a existência emocional do outro. Famílias em processo de cura tendem a desacelerar, escutar profundamente e responder com consciência, diferentemente de famílias adoecidas que reagem rapidamente e interpretam mal as falas.

A escuta é descrita como maturidade emocional, disciplina espiritual e intervenção terapêutica. A resolução de conflitos familiares passa pela transformação interna do indivíduo na comunicação, em vez de apenas ajustar as palavras.

A incapacidade de escutar, evidenciada pela reação antes da compreensão, defesa antes da escuta e julgamento antes da validação, indica que o problema pode residir na própria comunicação do indivíduo, e não no outro.

A falta de tradução emocional pode levar à sensação de que membros da família falam “línguas diferentes”. A mentoria, segundo o especialista, pode auxiliar na identificação de estados de ego, tradução de críticas em necessidades emocionais e restauração da conexão familiar com base em fé e psicanálise, incentivando a escuta do coração familiar antes que o silêncio emocional se torne irreversível.

Valceli Leite é Psicanalista, Teoterapeuta, Pastor e Presidente da ABRATHEO, com especializações em Terapia Familiar Sistêmica e T.C.C.

Ads

Mais notícias

Ads
Ads

Últimas Notícias