O avanço da proibição de smartphones em escolas americanas visa combater a queda no foco e no desenvolvimento infantil
Um número crescente de estados nos Estados Unidos está implementando restrições ou proibições totais ao uso de smartphones durante o horário escolar. De acordo com um levantamento do Education Week, 31 estados, além do Distrito de Columbia, já possuem políticas que limitam ou banem o uso de celulares por estudantes em parte ou em todo o dia letivo.
O apoio a políticas mais rigorosas para o controle do uso de dispositivos móveis nas escolas também tem crescido entre educadores. Uma pesquisa da American Association of Educators, realizada entre 2020 e 2024, indicou que 70% dos professores defendem a proibição de celulares durante todo o período escolar.
A questão ganhou destaque no Michigan, onde um projeto de lei bipartidário foi aprovado pela Câmara estadual e agora aguarda análise no Senado. Paralelamente, em Washington, legisladores examinaram o impacto de telas e dispositivos pessoais em crianças durante uma audiência no Senado dos EUA.
Durante essa audiência, o Dr. Jared Horvath, ex-professor e neurocientista cognitivo, alertou os legisladores sobre como a tecnologia em salas de aula frequentemente prejudica o processo de aprendizagem. “Quando a tecnologia entra na educação, o aprendizado diminui”, testemunhou Horvath. Ele enfatizou que o problema não se restringe apenas aos smartphones.
“Não importa se é um telefone, um laptop, um desktop, e não importa quem o comprou. Se é sancionado pela escola, se tem a palavra ‘educação’ carimbada nele. Nada disso importa. Todas essas coisas também vão prejudicar o aprendizado, o que por sua vez prejudica o desenvolvimento cognitivo das crianças.”
Pesquisadores e educadores apontam que as consequências da exposição excessiva a telas vão além do desempenho acadêmico. Um corpo crescente de pesquisas sugere que o uso intenso de telas pode afetar negativamente o desenvolvimento social infantil.
Um exemplo notável veio de Nova Iorque, onde um artigo do Gothamist descreveu como o banimento de telefones em escolas fez os horários de almoço voltarem a ser barulhentos, com conversas substituindo o silêncio predominante de estudantes absortos em seus aparelhos.
Emily Cherkin, membro da Universidade de Washington, também se pronunciou no Senado, contestando a ideia de que o uso precoce e constante de tecnologia prepara as crianças para o futuro. “A tecnologia não torna nossas vidas mais fáceis e prepara nossos filhos para o futuro? Infelizmente, não”, declarou Cherkin, contrariando as promessas otimistas de empresas de tecnologia.
Cherkin compartilhou exemplos preocupantes relatados por terapeutas e educadores, como terapeutas ocupacionais que precisam ensinar crianças a virar páginas de livros, e professores de pré-escola que observam bebês com aversão a colocar as mãos na terra. Ela mencionou um adolescente tão dependente do celular que o levava para o banho dentro de um saco plástico selado.
Defensores de escolas sem smartphones comparam as atuais proibições a reversões passadas na saúde pública. Kim Whitman, co-líder da Smartphone Free Childhood U.S., acredita que a tendência será semelhante à lei federal de 1994 que proibiu o fumo em escolas.
“Eu acho que em cinco a dez anos, estaremos nos perguntando ‘O que estávamos pensando?'”, disse Whitman. “Dentro da próxima década, olharemos para trás e ficaremos chocados por termos permitido smartphones em escolas, assim como uma vez permitimos salas de fumo em terrenos escolares. Ambos são produtos prejudiciais à saúde e estão destruindo a capacidade de foco das crianças, sua saúde e seu bem-estar.”
A forma como essas proibições são aplicadas varia. Algumas escolas exigem que os alunos usem bolsas com travas que permanecem seladas até o fim do dia. Outras utilizam armários de celular montados na parede, onde os dispositivos são guardados durante a aula e retirados depois. Há também a abordagem de trancar os telefones em armários ou caixas seguras durante todo o dia escolar.
Além do apoio docente, muitas dessas políticas têm sido bem recebidas por pais que desejam o melhor desenvolvimento acadêmico e social para seus filhos. Os estudantes, no entanto, geralmente demonstram menos entusiasmo com as restrições.
