Bioquímica Tatiana Sampaio esclarece percepções sobre a polilaminina em meio a questionamentos sobre sua forma e possíveis conotações religiosas
A bioquímica Tatiana Coelho de Sampaio, líder da pesquisa sobre a polilaminina, molécula com potencial para regenerar lesões na medula espinhal, abordou as repercussões geradas pela associação entre sua descoberta e simbolismos religiosos. Em participação no programa Roda Viva, na última segunda-feira (23), Sampaio foi confrontada sobre a semelhança estrutural da laminina, proteína base para a polilaminina, com a forma de uma cruz.
Durante a entrevista, o jornalista Jairo Marques, da Folha de S. Paulo, levantou a questão sobre a conveniência da forte aproximação entre a ciência e a fé, questionando se não seria prudente manter esses âmbitos mais separados na pesquisa científica. Marques citou a disseminação de vídeos nas redes sociais que rotularam a laminina como a “proteína divina” ou “proteína de Deus”.
Tatiana Sampaio refutou a ideia de que a semelhança estrutural da laminina represente um problema. “A laminina tem uma forma de cruz. Isso é um fato. Não tem como evitar que seja assim”, declarou. Ela defendeu que indivíduos religiosos e com fé são livres para interpretar a imagem como uma metáfora de suas crenças, ressaltando que não lhe caberia julgar a validade dessas apropriações.
Com mais de duas décadas dedicadas ao estudo da molécula na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a cientista enfatizou sua capacidade de discernir as fronteiras entre a ciência e a fé em sua trajetória profissional. “Eu consigo perceber muito claramente a fronteira entre a ciência e aquilo que não é ciência”, afirmou, detalhando que seu treinamento científico e sua formação em ciência básica a habituaram a atuar dentro de limites bem definidos.
A pesquisadora expandiu a discussão ao ponderar sobre a relação entre os limites da ciência e os limites da experiência humana. “O que eu acho que pode ser conversado, discutido, é se esses limites da ciência são os mesmos limites dos seres humanos. Porque eu pessoalmente acho que não”, argumentou. Sampaio destacou que se vê tanto como cientista quanto como pessoa, e que essas identidades operam com diferentes conjuntos de limites.
Em sua visão, a produção científica não deve ser considerada o ápice da realização humana. “Eu não acho que a ciência seja a coisa mais importante que um ser humano é capaz de fazer. Sinceramente, não acho. Acho que a gente faz coisas mais bacanas do que isso”, pontuou.
Anteriormente, Tatiana Sampaio já havia utilizado a expressão “proteína de Deus” para se referir à polilaminina, em razão de sua conformação molecular específica. A polilaminina é uma versão sintética desenvolvida em laboratório a partir da laminina, proteína produzida naturalmente pelo corpo humano durante a formação do sistema nervoso embrionário. O composto visa estimular a religação de fibras nervosas rompidas em decorrência de traumas na medula, com potencial aplicação em casos de paraplegia e tetraplegia.
Estudos experimentais com a polilaminina envolveram oito pacientes com lesões medulares graves e diagnóstico de irreversibilidade. Desses, seis apresentaram recuperação parcial da mobilidade e um indivíduo recuperou a capacidade de andar. Atualmente, a substância está em fase experimental, com ensaios clínicos em andamento e submetida à avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).


