Crítica teológica aponta o paradoxo de cultuar a Deus em meio ao anonimato dentro das igrejas
A liturgia cristã, em sua essência, pressupõe a comunhão (koinonia) como um pilar fundamental da adoração. No entanto, modelos eclesiais contemporâneos têm gerado um fenômeno de atomização social, onde indivíduos se reúnem fisicamente, mas se mantêm distantes em termos existenciais. Daniel Ramos, em sua análise teológica, investiga essa contradição e questiona a legitimidade de congregações que adoram a um Deus relacional ao mesmo tempo em que reproduzem o anonimato típico do mercado de consumo.
A arquitetura eclesiástica e a disposição litúrgica ocidental historicamente buscaram refletir a unidade do Corpo de Cristo, conforme descrito na epístola aos Efésios, onde os crentes são chamados a serem parte da “família de Deus”. Contudo, a experiência de fiéis no século XXI frequentemente diverge dessa premissa. Em muitos contextos urbanos e “megaigrejas”, o espaço do culto assemelha-se a um local de proximidade física desprovida de conexão genuína.
O louvor “Corpo e Família (Recebi Um Novo Coração do Pai)”, de Marcos Góes, é citado como um exemplo de canção que, apesar de sua beleza, pode ressoar de forma constrangedora para aqueles que se sentem desconectados dentro da própria comunidade de fé. A reflexão surge sobre a prática de sorrir para um irmão que passou o culto inteiro ignorando o outro, destacando a urgência em questionar como é teologicamente possível prestar um culto comunitário entre desconhecidos e qual a validade de uma adoração que reduz o próximo a um mero obstáculo visual ou a uma estatística.
A ontologia encarnacional em contraponto ao nominalismo litúrgico
A distinção entre a “catolicidade da fé”, que abrange a comunhão mística com crentes de todas as épocas e lugares, e o “nominalismo litúrgico”, que se caracteriza pela celebração de ritos sem substância relacional local, é crucial. Cultuar ao lado de um desconhecido, por si só, não invalida a liturgia, especialmente considerando que a mesa do Senhor é um lugar de acolhimento ao estranho, como enfatizado na teologia da hospitalidade de Mateus 25. Cristo se identifica com o estrangeiro, e a assembleia de santos, embora não compartilhe laços de sangue, é unida pelo batismo.
O colapso teológico ocorre quando o “desconhecido” se transforma em “ignorado”. Ignorar o irmão ao lado enquanto se professa amor ao Cristo invisível configura uma contradição, como aponta a primeira epístola de João (4:20): “Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?”. A adoração cristã possui um vetor horizontal inescapável, e ignorar a “carne do irmão” pode flertar com o gnosticismo, ao negar a presença visível em favor da invisível.
A dificuldade em ser igreja reside menos em ser filho do Pai e mais em ser irmão. O espaço de culto pode se tornar um lugar de reunião sem união, onde “reunidos” difere de “unidos”. Estar no mesmo lugar não garante o mesmo propósito, segundo a análise.
O isolamento na assembleia e a eclesiologia do auditório
A presença de indivíduos isolados em comunidades de adoração sinaliza a substituição do conceito bíblico de “comunidade” pelo sociológico de “público”. No modelo de auditório, o foco se desloca do relacionamento mútuo para a experiência individual, transformando o culto em um bem de consumo espiritual privado. Os outros participantes tornam-se meros coadjuvantes, sem que se estabeleça uma aliança genuína.
Esta dinâmica contrasta com a assembleia fundamentada na koinonia:
- A Assembleia como Corpo (Koinonia): O próximo é um membro do corpo, sujeito de cuidado mútuo. O foco do culto é a glória de Deus mediada pela edificação mútua. A Eucaristia é partilha que confere identidade ao grupo. A legitimação advém do amor intra-eclesial e do testemunho externo.
- A Assembleia como Auditório (Atomização): O próximo é um espectador anônimo, co-consumidor do evento religioso. O foco é a satisfação de demandas terapêuticas e devocionais do indivíduo. A Eucaristia é um rito individual. A legitimação vem da eficiência técnica e estética.
A crise de legitimidade da congregação indiferente
A questão da legitimidade de uma congregação onde os membros se ignoram atinge o cerne da eclesiologia paulina. Em 1 Coríntios, ao analisar a Ceia do Senhor, o apóstolo Paulo declara que o ajuntamento “perde a identidade de culto cristão” quando os ricos ignoram os pobres na mesa comunitária. Ele afirma que eles falham em “discernir o corpo”, referindo-se tanto à comunidade quanto ao corpo sacramental.
Uma congregação que escolhe se desconhecer por apatia carece de legitimidade teológica plena. Ela pode manter a forma de piedade, mas nega a eficácia do Evangelho que derrubou barreiras de separação. Uma igreja que tolera o isolamento em suas fileiras litúrgicas “santifica a solidão que o mundo produz” em vez de curá-la, funcionando como um contrassinal do Reino de Deus.
O conflito reside em “ser igreja” ou uma comunidade mundana irrelevante, travestida de religiosa, sem experiência de irmandade. A existência de uma “mesa” comunitária é questionada quando há apenas “ovelhas solitárias na mesa dos estranhos isolados”.
Da massa anônima ao corpo místico
A possibilidade de cultuar entre desconhecidos só é legítima se o anonimato for visto como um estado temporário a ser redimido pela hospitalidade cristã. A liturgia exige uma disposição ontológica de abertura ao outro, não necessariamente uma intimidade psicológica imediata em grandes assembleias. Para que as instituições teológicas não apenas diagnostiquem a atomização, é preciso resgatar a dimensão sacramental da acolhida.
A legitimidade de uma igreja local não se mede pela sofisticação litúrgica ou pelo número de assentos ocupados, mas pela sua porosidade relacional. Se a encarnação de Jesus Cristo é o padrão teológico, a comunidade que o adora deve transitar da condição de massa anônima para a dignidade de “Corpo”. Isso requer que as liturgias contemporâneas criem espaços para partilha, diaconia e reconhecimento mútuo, evitando que o Templo do Deus Vivo se converta em um santuário do indivíduo moderno.
Daniel Ramos é professor, colunista do Guia-me e professor de Teologia. Possui Licenciatura em Letras, Bacharelado/Mestrado em Teologia e pós-graduação em Docência. Tem mais de 20 anos de experiência ministerial.
