Dependência emocional: a linha tênue entre devoção e distorção espiritual que afeta mulheres
Muitas mulheres interpretam o sofrimento em relacionamentos como prova de devoção, acreditando que quanto mais suportam, mais demonstram amor. Contudo, essa visão confunde fé com distorção emocional, mascarada de espiritualidade. A interpretação equivocada de passagens bíblicas pode levar à normalização da negligência, abuso emocional e relações marcadas pelo sacrifício unilateral. Clinicamente, essa dinâmica não se configura como amor, mas sim como dependência emocional, um padrão de fusão psíquica que compromete a identidade, a autonomia e a dignidade da pessoa.
A Teopsicoterapia, abordagem que une teologia e psicologia, ressalta a importância de distinguir o verdadeiro sacrifício cristão, um ato de amor maduro, da autodestruição psíquica, que se assemelha à autopunição emocional. Néia Leite, psicanalista e teoterapeuta, alerta que o Evangelho não prega a autoaniquilação. O mandamento de amar ao próximo como a si mesmo (Marcos 12:31) implica reciprocidade e autorrespeito, não anulação pessoal em benefício do outro.
O complexo de Messias e a fuga do vazio interior
Mulheres que operam sob esse padrão frequentemente assumem o papel de salvadoras de parceiros com vícios, irresponsabilidades ou instabilidade emocional. Essa postura, erroneamente vista como amor sacrificial, na verdade usurpa um papel divino. O Evangelho não exige a destruição pessoal para sustentar o desequilíbrio de outra pessoa adulta. Essa dinâmica codependente organiza a vida em torno da ilusão de indispensabilidade, mascarando feridas narcísicas e evitando o confronto com o próprio vazio interior, carência, solidão e partes fraturadas.
O drama do outro funciona como um analgésico para a dor da pessoa dependente. O chamado ganho secundário reside na sensação ilusória de valor ao ser “a única que aguenta”, o que paradoxalmente destrói a autoestima real e configura uma sofisticada forma de autoabandono.
Restaurando a identidade através do limite e do autocuidado
A cura da codependência passa pela imposição de limites claros, que não devem ser confundidos com frieza, mas entendidos como um mecanismo de proteção da identidade emocional e espiritual. Cristãos frequentemente associam limite ao egoísmo, quando, na verdade, ele é fundamental para o autocuidado.
A prática teopsicoterapêutica sugere a cessação do amortecimento das quedas alheias, permitindo que os indivíduos enfrentem suas próprias consequências. Ajudar não significa carregar responsabilidades que não são suas. Dizer “não” a abusos, manipulações ou dependência unilateral é um “sim” à dignidade, ao autocuidado e ao mandamento de amar a si mesmo. Amar, na perspectiva cristã, é possuir e compartilhar uma estrutura sólida com alguém que também se responsabiliza pela sua, e não desaparecer no outro.
Se a dinâmica envolver mendigar afeto, dar excessivamente em troca de migalhas e temer a solidão, isso não é amor, mas um vínculo de sobrevivência psíquica que necessita de tratamento. A Teopsicoterapia busca fortalecer o Eu, reestruturar limites, tratar a raiz da carência e restaurar a capacidade de se relacionar por escolha, e não por dependência.


