Mary B. Woodworth-Etter, figura central do movimento Holiness, antecipou práticas que depois seriam centrais no pentecostalismo, com curas, profecias e manifestações corporais em grandes campanhas
Mary B. Woodworth-Etter, nascida em 1844 e falecida em 1924, liderou campanhas de avivamento em massa muito antes do avivamento da Rua Azusa, oferecendo um repertório espiritual que viria a ser familiar ao pentecostalismo.
Seus cultos foram marcados por êxtases, quedas ao solo, curas, profecias e trances espirituais, fenômenos que atraíam multidões e despertavam atenção crítica da imprensa, que por vezes classificava os eventos como fanatismo religioso.
Essas informações constam em reportagem sobre o legado de Woodworth-Etter, conforme informação divulgada pelo Portal Guiame, com texto assinado por Ediudson Fontes, pastor e pesquisador.
Uma mulher à frente de seu tempo
Ordenada no contexto do movimento Holiness, Mary B. Woodworth-Etter rompeu barreiras teológicas e culturais, pregando em um período em que as mulheres eram amplamente excluídas do púlpito, e o fazia com autoridade reconhecida até por críticos.
Suas reuniões atraíam milhares de pessoas, e a cobertura jornalística, quando não hostil, registrava a intensidade das experiências, a rapidez das mobilizações e o impacto social desses encontros religiosos.
Contribuição decisiva para a espiritualidade pentecostal
A despeito de não usar expressões que só se consolidaram depois de Azusa, como batismo no Espírito Santo no sentido pós-1906, a teologia e a prática de Woodworth-Etter prepararam o terreno para o pentecostalismo clássico.
Ela enfatizava a centralidade da experiência, a expectativa de manifestações sobrenaturais e a compreensão do corpo como espaço da ação divina, elementos que viriam a ser retomados por líderes posteriores.
Heranças e conexões históricas
Figuras como William J. Seymour e outros líderes iniciais do pentecostalismo herdaram, direta ou indiretamente, um léxico espiritual e performativo que Mary B. Woodworth-Etter ajudou a consolidar, com ênfase em cura, profecia e manifestação pública do Espírito.
Essa continuidade revela que a história do pentecostalismo é mais complexa do que uma origem única centrada em Azusa, e aponta para linhas de precedência que vêm do Holiness e de pregadoras como Woodworth-Etter.
Por que foi quase ignorada
Há pelo menos três razões que ajudam a explicar o esquecimento parcial de Mary B. Woodworth-Etter na historiografia dominante do pentecostalismo, segundo análise citada pelo Portal Guiame.
Primeiro, o gênero, pois a narrativa foi construída majoritariamente por homens em contextos institucionais que privilegiaram figuras masculinas.
Segundo, a origem Holiness, já que muitos historiadores e líderes procuraram traçar uma linha que partisse exclusivamente de Azusa, minimizando influências anteriores.
Terceiro, a fenomenologia corporal de seus cultos, que provocou desconforto teológico e sociológico em gerações posteriores, levando à moderização de práticas e à marginalização de evidências históricas incômodas.
Uma recuperação necessária
Resgatar a memória de Mary B. Woodworth-Etter não é apenas um ato de justiça histórica, é um convite à autocrítica dentro do pentecostalismo, para reconhecer a pluralidade de suas raízes e o papel decisivo das mulheres na construção da espiritualidade do movimento.
Ignorá-la empobrece a compreensão das origens e das dinâmicas que moldaram o avivamento pentecostal, e revela mais sobre os filtros ideológicos da historiografia do que sobre a real importância de seu legado.
O levantamento e a reflexão sobre figuras como Woodworth-Etter, conforme aponta o texto publicado no Portal Guiame por Ediudson Fontes, ampliam a narrativa histórica e contribuem para uma história do pentecostalismo mais inclusiva e precisa.


