Religiosos baianos questionam dados do IBGE sobre baixa religiosidade em Salvador

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Representantes de religiões do estado analisaram a notícia publicada numa revista de circulação nacional, na semana do Natal, baseada no Censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizado no ano de 2000, que coloca Salvador em primeiro lugar entre as capitais do país com o maior percentual de habitantes sem religião.

Diante da polêmica criada na terra conhecida pelo sincretismo religioso, pelas inúmeras igrejas e terreiros de candomblé, os religiosos explicam como entendem os dados coletados na pesquisa.

O arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, cardeal dom Geraldo Majella Agnelo, chegou a contestar os números do censo à época da publicação, mesmo admitindo desconhecer a pesquisa. Disse ter a informação de que cerca de 80% dos baianos se consideram católicos, mas não comentou sobre o alto percentual de pessoas sem religião. Ontem, o padre Manoel Filho, assessor de comunicação da Igreja, falou como a instituição analisa os dados.

O padre não contestou os números do censo, nos quais aparece que 18,14% da população de Salvador diz não ter religião. Em todo o estado, o percentual é menor, mas também surpreende: 11,38% dos baianos declararam que não possuem qualquer religião ou culto, ficando atrás apenas do Rio de Janeiro (16%) e Rondônia (13%). Ele atribuiu os altos números de pessoas sem religião ao enfraquecimento das instituições, incluindo a Igreja.

Para o padre Manoel, o enfraquecimento das instituições políticas, familiares e também religiosas são características da pós-modernidade. Por isso, acrescentou ele, as religiões mais institucionalizadas estão perdendo adeptos. Segundo o padre, o sagrado nunca esteve tão em voga, mas as religiões estão em baixa. “As pessoas acreditam em Deus, mas não querem cumprir as obrigações das religiões mais institucionalizadas”.

O pároco também destacou o sincretismo cultural na Bahia como um dos motivos que vêm desvinculando as pessoas de suas religiões. Para ele, muitos baianos freqüentam várias igrejas ou cultos diferentes, absolvendo um pouco de cada um deles e acabam não definindo uma religião como a principal. O espírita José Medrado, fundador do Centro Cidade da Luz, concorda que, com a mistura de várias religiões, os baianos acabam não conseguindo determinar qual a sua escolhida.

Medrado acredita também que as pessoas acabam se afastando das suas religiões, muitas vezes, por ficarem desencantadas com elas. Para o espírita, também existe uma crise das instituições, mas causada pela perda de credibilidade delas. “As pessoas perdem a crença nas instituições todas as vezes que um padre é flagrado envolvido com pedofilia ou um pastor é pego fugindo do país com mala de dinheiro”.

O médium analisa o enfraquecimento das religiões institucionalizadas como um fator positivo. “As pessoas estão se libertando das obrigações impostas por algumas igrejas e indo procurar outras alternativas, buscando sua própria religiosidade”, explicou.

A intolerância religiosa e a discriminação com os cultos de origem africana são os motivos que levam as pessoas a dizer que não seguem uma religião, por terem vergonha de assumir que são adeptas de candomblé. Esta é a opinião da equede Sinha, porta-voz do terreiro Ilê Axé Iya Nassô Oká, conhecido como Casa Branca, na Federação.

Mãe Sinha não acredita que existam tantas pessoas sem seguir religião em Salvador, com tantos terreiros de candomblé espalhados na cidade. Segundo ela, já foram catalogados três mil terreiros de candomblé na capital baiana, num levantamento que está sendo feito pela Secretaria Municipal de Reparação e do Centro de Estudos Afro Orientais (Ceao), ligado à Ufba. “Muitos negros ainda têm vergonha de assumir que são de religiões afrodescendentes”.

Censo

O censo 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizado na Bahia constatou que 74% dos baianos se declaram católicos, enquanto 11,38% dizem não ter religião e 11,18% evangélicos. A pesquisa levantou ainda que 0,11% seguem candomblé e 0,8% o espiritismo. Entre os soteropolitanos, 60,54% alegam ser católicos, 18,14% sem religião, 13,29% evangélicos, enquanto os espíritas representam 2,53%, candomblé 0,37% e umbanda 0,12%.

O censo foi realizado nos 415 municípios baianos por técnicos do órgão. O levantamento sobre a religião dos baianos foi feito num questionário aplicado por amostragem em 10% dos domicílios. Para o supervisor de disseminação do órgão no estado, a revista Veja cometeu erros graves na reportagem, quando por exemplo confunde pessoas que não têm religião com as que não acreditam em Deus, os ateus.

Fonte: Correio da Bahia

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